Carolina Cesconetto Martins é feminista e mãe de dois meninos. De Tijucas/SC para Hermosa Beach, na Califórnia, onde mora hoje com a família, traça seu caminho com o objetivo de empoderar mulheres, meninas e meninos também. Como nos disse certa vez, “quer ajudá-los a serem mais doces, a mudar essa ideia de que menino não chora, menino tem que ser forte e blá blá blá… afinal, tudo faz parte de um único pacote”.

Conhecemos a Carol nos cursos de doula de parto e pós-parto que fizemos juntas. Sua alegria pela descoberta do mundo da doulagem e sua capacidade de expressar tão bem a sua verdade nos chamou a atenção.

Hoje, neste Dia da Mulher, temos a honra de publicar um texto de Carol, com cara – como não poderia deixar de ser – de Carol: sincero, forte, genuíno e que nos faz pensar.

Obrigada, colega, por colocar no papel aquilo que nosso peito guarda e que  nossa voz branda!

 

O que há no dia da mulher?

Por Carol Cesconetto

 

Todas as noites quando eu durmo eu coloco o celular no modo avião por causa da diferença de fuso, pra não acordar com as mensagens de madrugada. Quando tirei o celular do modo avião, recebi aquela enxurrada de mensagens sobre o dia da mulher e dessa vez eu não quis responder com coraçãozinho pra todas que recebi. Esse ano eu me sinto no dever de questionar algumas coisas.

Talvez eu tenha começado bastante amarga, com as artes de uma moça que sigo no instagram falando que “não quero flores” e isso já me deu o título de feminista radical logo pela manhã. Hoje eu tenho bem claro que a minha missão de vida é empoderar mulheres e é isso que eu tento fazer, diariamente, com meu trabalho de formiguinha.

Dizer que não quero flores é um tanto extremo. Eu amo flores e adoraria recebê-las hoje e em qualquer outro dia do ano. Mas como essas pessoas que estão te dando flores são com você durante os outros 364 dias do ano?

Quem está te dando flores é aquele chefe que quis sexo com você e quando percebeu que não teria fez de tudo pra te prejudicar? As flores vieram daquela empresa que paga salário menor pras mulheres porque elas podem ter filhos? Ou daquele cara que não deixa você falar na sua reunião porque você é mulher e não pode parecer mais inteligente que um homem? Ou do gerente que assina todas as suas cartas com o nome dele e nunca disse um obrigado, afinal você é só uma secretária?

Talvez quem tenha trazido as flores de hoje tenha sido o marido, que sai pra tomar uma cerveja toda quarta-feira, mas que não permite que você faça o mesmo com as amigas nas terças. Ou até permite, mas não cuida das crianças pra que você possa ir tranquila. Talvez seja o mesmo marido que tem aquela “barriguinha” de chopp, mas que te chama de gorda de “brincadeira” enquanto tu comes a sobremesa.

Mas sabe.. eu não quero um post de ódio. Eu quero um texto de amor. Não quero fazer um post pra reclamar do que está errado. Quero fazer um post pra mostrar o quanto ainda temos que melhorar. Então vou tentar mudar a forma de falar daqui pra frente.

No dia de hoje e nos outros 364 dias do ano eu não quero só flores. Todos os dias do ano eu quero sair sozinha na rua sem medo. Quero passar em frente a um bar cheio de homens e não me sentir constrangida. Quero usar a roupa que eu quiser sem que ninguém se ache no direito de tocar no meu corpo por causa do tamanho da peça que eu escolhi. Quero ter o direito de andar sem camisa se eu estiver com calor, igual aos homens, e que ninguém ache que eu estou provocando, pedindo pra ser estuprada ou querendo chamar a atenção.

Quero ver cada dia mais fotos de mulheres normais de biquíni, amando seus corpos, e que essas fotos ajudem centenas de outras mulheres a se amarem como são, a perceberem o quanto é lindo simplesmente ser. Desejo que toda mulher possa ir a uma balada sem que os caras se achem no direito de tocá-la simplesmente porque acham que é normal.

Que nenhuma mulher se sinta obrigada a permanecer num relacionamento abusivo porque o cara ameaça suicídio se ela o deixar. Que nenhuma mulher deixe de usar a saia que quer porque o namorado não permite. Que nenhuma mulher seja demitida após a licença-maternidade, e melhor ainda, que nenhuma mulher deixe de ser contratada por ser mulher e potencial mãe.

Que nenhuma mulher tenha que ouvir que o marido “ajuda” ela em casa, como se os afazeres domésticos fossem obrigação somente das mulheres. Que em mais nenhum almoço de família as mulheres fiquem na cozinha enquanto os homens ficam tomando cerveja e jogando dominó lá na rua.

Que nenhuma pessoa repita quando se descobre o sexo do bebê que o bebê vai ser “fornecedor” ou “consumidor” e que tenhamos forças pra argumentar sem brigar com aquelas pessoas que falam “amarre sua cabra porque meu bode está solto”, já que pelo jeito temos que ensinar as meninas a se cuidarem porque ninguém ensina os meninos a respeitarem limites.

Desejo que no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano, as mulheres se vejam como irmãs e não como rivais. Que, quando um cara trair uma mulher, a culpa não seja despejada na “vagabunda” que roubou o namorado dela, mas sim que o homem seja responsabilizado pelos seus atos.

Que me respeitem por eu ser quem eu sou e não por eu ser mulher de um homem. Não somos de ninguém. Somos de nós mesmas e merecemos respeito 24 horas por dia, 7 dias por semana, por toda a vida.

Que as mulheres possam gostar de sexo e também possam não gostar ou não querer. Que nenhuma mulher se sinta na obrigação de transar pra agradar o marido porque senão ele vai procurar “lá fora”.

Que a educação dos filhos seja socialmente responsabilidade de ambos os pais e que quando você vir uma criança fazendo algo errado você não pergunte “cadê a mãe dessa criança?”, mas sim pergunte onde estão os pais dessa criança.

Eu quero ter, e que todas as mulheres tenham, o direito de escolher se quero trabalhar fora ou ser mãe em tempo integral. Que as mulheres possam sair de casa todos os dias com maquiagem ou sem, de salto ou de all star, depilada ou não, de cabelo branco ou pintado, gorda ou magra, casadas ou solteiras… Que as mulheres possam andar num ônibus apertado sem que ninguém passe a mão na bunda ou vagina dela. Que nenhuma mulher seja tratada como objeto e/ou propriedade de ninguém, a não ser de si mesmas.

Feminismo não tem nada a ver com ódio, com não depilar ou querer ser melhor que os homens. A nossa luta é pra que nós mulheres tenhamos os mesmos direitos que os homens em várias situações da vida. Não é fácil mudar uma cultura. Mas podemos começar a questionar e desconstruir pensamento por pensamento, discurso por discurso, até que um dia a gente consiga mudar as atitudes e ter um mundo mais igual.

Te convido a observar, na sua vida, onde você está reproduzindo o que você sempre ouviu e nunca parou pra se questionar. O primeiro passo é perceber. Depois você começa a mudar sua atitude de forma “forçada” e então a nova atitude fica natural. A maioria de nós, por mais “desconstruidonas” que pareçamos, ainda luta bastante internamente pra desconstruir esses padrões.

Feliz dia das mulheres. Mulheres felizes todos os dias.

4 comentários

  1. Muitíssimo orgulhosa pelas tuas palavras. Um texto muito bem escrito e acima de tudo, prazeroso de ler.
    Parabéns e Deus te abençoe grandemente 😘.

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