É comum hoje encontrar mães que enrolam seu bebê num charutinho, como dizemos no Brasil, normalmente com a intenção de acalmá-lo ou então para que o bebê durma mais e melhor. Essa prática é bastante popular e é ensinada em cursos pré-natais, às vezes recomendada por pediatras e aconselhada de mãe para mãe por amigas e parentes. Vídeos mostrando como fazer um charutinho no seu bebê há inúmeros na internet e são bastante acessados. Mas, afinal, enrolar o bebê num charutinho é certo ou errado?

A história dessa prática remonta a tempos antiquíssimos. Estudos arqueológicos estimam que o hábito de enrolar o bebê começou a ser feito 4.000 anos A.C., na Ásia Central, com o bebê “acoplado” numa espécie de prancha levada nas costas, por povos migratórios. A partir daí a história do charutinho reflete a própria história da educação das crianças e seus princípios. O assunto daria um post enorme e ainda vamos escrever especificamente sobre isso. Mas por ora eu gostaria de falar das concepções de hoje sobre o uso dessa técnica.

Embora embrulhar o bebê seja uma conduta altamente divulgada e utilizada, há pouco me deparei com um artigo de uma doula pós-parto americana listando oito razões para não fazê-lo (e duas para fazê-lo). Vou listá-las aqui e depois quero dividir minhas reflexões com vocês.

Eis as oito razões mencionadas pela articulista, em tradução livre:

– Pode causar displasia de quadril: Em 2011, um estudo da Academia Americana de Pediatria concluiu que enrolar o bebê não é recomendado, pois a displasia de quadril era bem comum nos anos 80, antes da técnica sair de moda nos EUA. A recomendação tinha como alvo especialmente as creches, mas foi ignorada e cada vez há mais produtos no mercado relativos a enrolar o bebê.

– Restrição de movimentos: Um bebê pode se virar de bruços enquanto está no charutinho, mas não terá seus braços livres para conseguir voltar à posição de cabeça pra cima. Isso constitui um risco de morte para o bebê. Uma vez que o bebê saiba rolar, ele precisa ter seu corpo todo livre para aprender a usá-lo e inclusive para afastar-se de algo que poderia o estar sufocando.

– O bebê não consegue fechar a mão num punho: e isso – fechar a mãozinha – é a principal maneira que o bebê encontra para se acalmar sozinho.

– O peito pode ficar comprimido: e isso pode prejudicar a respiração.

– Pode causar sufocamento: quando enrolados num cueiro, os bebês podem acabar soltando as mãos e puxando o tecido sobre a cara, e isso é risco de sufocamento. Para bebês maiores um saquinho de dormir é mais recomendado.

– Embora os bebês durmam mais e melhor quando embrulhados, essa dormida longa está associada a um maior risco de morte súbita (SID – sudden infant death): enrolar o bebê não é necessário – e nem deve ser feito – se o bebê dorme ao lado da mãe e mama com contato pele a pele. Amamentar, aliás, é muito mais efetivo que o charutinho para acalmar o bebê e ajudá-lo a dormir.

– Pouco ganho de peso: um estudo russo mostrou que bebês que eram amamentados e também enrolados acabavam mamando com menos frequência do que aqueles que não eram embrulhados, pois acabavam não acordando tantas vezes para mamar.

– Enrolar o bebê pode tornar-se uma forte associação sem o que o bebê não conseguiria mais dormir, sendo bastante desafiador desvincular uma coisa da outra. Isso porque, sem o charutinho, o bebê já não saberia mais o que fazer com seus braços e pernas, ou como aquietar-se para cair no sono. Essa associação que ajudamos a criar vem de um medo que nós temos de que o bebê não dormirá nunca ou de que ele sempre vai precisar de algo para ajudá-lo a dormir.

Bom, essas são as razões citadas no artigo. Elas podem parecer meio exageradas e a verdade é que se aplicam especialmente ao uso prolongado do charutinho.

Eu lancei mão da técnica apenas nas primeiras semanas de vida dos meus filhos, acho que não deu nem um mês. Com o Caio, nunca consegui prender os braços como mostram os tutoriais por aí. Me dava medo de apertar e em questão de minutos ele já estava com os braços para fora (vejam na foto; eu deixava larguinho mesmo! Acho que nem posso chamar isso de charutinho, né?). Com a Isadora eu também nunca fiz a coisa “como manda o figurino”, mas a enrolava do meu jeito mesmo para mantê-la quentinha em pleno inverno, com os bracinhos pra fora. De fato, ela se acalmava e adormecia assim.

Hoje eu acho que se aplica mesmo o bom senso. Como disse a doula pós-parto ao final do seu artigo, há casos em que ela própria recomenda o charutinho: para bebês recém-nascidos que choram muito (mas o que é chorar muito? Uma ideia bem subjetiva…) e para recém-nascidos que têm um forte reflexo de moro, aquele que faz com os bebês levantem os bracinhos repentinamente. De qualquer forma, nunca após dois meses e meio de vida.

A recomendação da Abraço de Mãe é que as famílias testem a técnica no seu bebê – alguns vão adorar enquanto outros vão querer se desfazer do cueiro –, sempre atentos a não apertar demais para impedir a compressão do peito e permitir algum movimento de pernas, evitando assim a dislexia de quadril. Ficando atentos ao seu bebê, as famílias saberão a hora de parar de usar o charutinho, que certamente acontecerá antes dos três meses. Quando um dos lados – os pais ou o bebê – não se sentir mais confortável é sinal de que a técnica não está mais trazendo benefícios.

Para manter os bebês aquecidos no inverno, especialmente os maiores, hoje o mercado tem várias opções de saquinhos de dormir que, grandes, não restringem movimento e mantêm os braços para fora. Eu usei com meu filho, hoje com 4 anos, até o inverno passado, e isso me tranquilizava muito por saber que ele não se descobriria e passaria frio.

Enfim, como tudo que envolve cuidado e educação de filhos, o que vale é informação de qualidade e bom senso. Agora conta pra gente, você enrola ou enrolava seu bebê? Funcionou?

13 comentários

  1. Eu faço essa técnica ,aprendi com a encantadora de bebês,acho que só é perigoso se for feito com excesso como tudo na vida , só faço isso durante o dia 1 ou 2 vzs porq minha bebê não estava dormindo e ficava muito agitada e assustava toda HR , quando o bebê não dorme fica enjoado e chora muito a minha tem até refluxo por ficar agitada. Não vejo problema algum. É só não fazer o tempo todo querendo que o bebê só durma ,só não recomendo fazer isso a noite porq sem supervisão não confio só quando estou do lado olhando . Abraço 😘😘

  2. Minh filha Chloe está com dois meses e meio e o charutinho tem sido muito útil desde que nasceu, não teve perda de peso pelo contrário está com 5.300kg, usamos a prática nas madrugadas e as vezes durante o dia, mas sempre ficamos de olho pra que ela não se sinta sufocada. Mas o artigo que li me deixou alerta pra questão do se virar de bruço, creio que está na hora de começar a parar de usar o “charutinho” porém ela se mexe muito e irá acordar toda hora. Mas vamos nos adaptar sem.
    Obrigado pelo artigo.

  3. Eu enrolo minha filha em charutinho desde que ela nasceu e ontem ela fez quatro meses. Ela dorme bem melhor e quando não está enrolada se assusta e acorda. Mas como agora ela começou a rolar, comecei a me preocupar e vou deixar de enrola-la. Vamos ver como serão as próximas noites.

  4. Apolo não deixa ser embrulhado, eu já usei varias formas e nada, ele não fica mais que 3 minutos embrulhado, a técnica funciona sim para acalma-lo no colo, com um cueiro de tecido bem elástico e macio. Claro que devemos tomar todos os cuidados e esse papo de doula é um mais furado que outra, como pai fiz vários cursos com Doulas de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso, escutamos cada besteira, vamos ouvir os pediatras pessoas que estudaram pra isso por vários anos e que atendem dezenas de crianças por dia. Abraço.

    1. Olá, Notonozou. De fato, nem todos os bebês vão gostar de ser enrolados. Sobre as doulas, acredito que você pode ter ouvido alguma falando besteira, da mesma forma que eu já vi pediatra desatualizado falando besteira também. Mas nem por isso eu generalizo, colocando todos “no mesmo saco”. Sugiro que você mantenha o mesmo respeito pelas doulas, mulheres cuja dedicação pode mudar a experiência de parto e pós-parto da mãe recente, contribuindo para uma vivência muito mais serena e positiva. Abraço.

  5. Nós enrolamos a Sofia pelos primeiros dois meses. Nas dormidas diurnas não, apenas na madrugada. Os bracinhos ao lado do corpo e apertadinha no cueiro. Ela dormia lindamente. Desde quando nasceu, acorda uma ou duas vezes na madrugada. Mas por conta disso, ela realmente teve o problema do peso… Hj está gordinha e saudável! Acho que não se deve passar dos dois meses e meio mesmo! Aprendeu a se mexer, saiu do charutinho… Bjs!! 😉

  6. A Valen deve ter sido enrolada apenas duas ou três vezes. Acho que não deve ser bom perder a mobilidade. Mas que eles ficam bonitinhos, ficam.
    🙂

  7. Du, eu “usei” a técnica da mesma maneira que você. A Helô sempre ficou muito irritada em ter os braços presos – desde que nasceu. Se eu fazia o tal “charutinho” prendendo os braços, ela chorava ainda mais. Era só soltar os braços e ela acalmava. Informação sempre é importante, mas o principal, como você falou, é observar SEMPRE. Afinal se nem nós adultos somos todos iguais, imagina os pequenos hehe.
    Beijo

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