Anamaria Marques Vincenzi é uma pessoa doce, de voz suave, supercarinhosa e também muito forte e decidida. Ela é minha aluna de Dança do Ventre há bastante tempo e com essa convivência estreitamos laços. Tive a oportunidade de experimentar uma sessão de reiki com ela e foi fantástico. Com sua seriedade no trabalho, ela transmite segurança e muita energia positiva. Aninha, como a chamo carinhosamente, também tem o dom artístico em suas veias – é licenciada em Artes Cênicas e Música, ambas pela UDESC, e toca flauta com muita destreza. Uma mulher encantadora!

Anamaria é formada também em Reiki nível 1 e 2, Cromoterapia, Fitoenergética nível 1 e Tarô, tendo assim uma visão mais holística da vida. Fez os cursos de doula pós-parto e educadora perinatal e atualmente se aprofunda na pós-graduação em musicoterapia.

Hoje nesta entrevista Aninha conta como iniciou sua jornada com mães e bebês e como a musicalização para os pequeninos é importante. Com um trabalho sério e dedicado, ela ajuda os bebês a se conectarem com a música e suas emoções. Lindo de ver!

Abraço de Mãe – Quando e por que você começou a trabalhar com mães e bebês?

Anamaria Vincenzi – Meus primeiros passos neste caminho começaram a partir de um convite que recebi para ministrar aulas de dança do ventre para mamães com bebês de colo em um espaço destinado a atender apenas gestantes e mamães no pós-parto. Na época, eu aceitei o convite, mas acabei desistindo por não me sentir segura para trabalhar com este público, visto que não tinha nenhum curso relacionado a gestantes, parto e pós-parto e tinha receio de fazer algo que ao invés de ajudar pudesse prejudicar este período tão importante na vida das mamães e seus bebês. Entretanto, fiquei encantada com este universo tão incrível e com a possibilidade de realizar um trabalho que contribuísse de alguma forma para este momento tão sublime que é o início de uma nova vida. Mas pensava que este não seria meu caminho, visto que na época meu maior trabalho era como professora de música apenas. Para minha surpresa, mamães e papais começaram a me procurar porque queriam aula de música para seus bebês e no mesmo momento surgiu a oportunidade de realizar os cursos de doula pós-parto e educadora perinatal. Bem, parei de brigar com a vida, aceitei começar a dar aulas de música para bebês e fui fazer os cursos. Para completar, no ano passado surgiu a oportunidade de realizar uma pós-graduação em musicoterapia, a qual está em andamento. E este ano, em abril, a formação de doula de parto.

AM – Fala mais da musicoterapia, Ana!

AV – Na musicoterapia, existem trabalhos específicos realizados desde a gestação com as futuras mamães que contribuem para desenvolvimento do bebê ainda no ventre, para preparar mãe e bebê para o parto e no pós-parto também. Realizar a formação de doula será fundamental para complementar o que estou aprendendo na musicoterapia. Isso me motivou a seguir me dedicando a este caminho que tem se mostrado de forma muito natural para mim, o que me deixa feliz e agradecida. Percebo nas aulas com os bebês o quanto as mamães precisam de apoio neste momento, de serem acolhidas, ouvidas sem julgamentos. Percebo o quanto se preocupam com o bom desenvolvimento de seus bebês, a dedicação de cada uma delas, o quanto se cobram para serem perfeitas e isso também me motiva a continuar, para através da música apoiá-las nesse sentido. Digamos que esse caminho está se tornando uma linda história de amor à vida. É um privilégio participar de um momento tão especial na vida de um ser humano, quando tudo está começando.

AM – Como a música influencia no relacionamento entre mães em bebês?

AV – A música é algo que está presente naturalmente na vida. Se pensarmos nela como vibração de sons, estaremos ampliando nosso conceito sobre música e possibilitando que ela seja compreendida de outras formas, diferentes das habituais. Desde a gestação, o bebê já pode sentir todos os sons que são vivenciados por vibrações. Seu aparelho auditivo começa a se desenvolver a partir da 20ª semana e está pronto na 25ª semana de gestação, quando começa de fato a ouvir. Os primeiros sons que ele percebe são o ritmo dos alimentos que passam através do cordão umbilical, as batidas do coração da mãe e de seu próprio coração. Ele se identifica com os sons internos do corpo da mãe e com a voz dela, estabelecendo assim as primeiras referências sonoras que irão lhe trazer segurança. O vínculo musical que se estabelece no período gestacional é tão intenso e importante que tudo o que a mamãe ouvir nesta fase irá influenciar o gosto musical do seu filho futuramente. Se ela ouvir música erudita com frequência, é possível que essa criança tenha gosto por este tipo de música. Se ouvir muito rock, talvez queira aprender guitarra e assim por diante. A musicalidade do bebê está atrelada à musicalidade da mãe.

AM – Como esta aula/vivência de musicalização é realizada?

AV – A Sensibilização Musical para Gestantes e Mamãe/Bebê, que é como chamo esta proposta de trabalho, atualmente está bastante fundamentada na musicoterapia e nos aprendizados que tive no curso de doula pós-parto. A proposta é que a mãe participe das aulas sempre, principalmente se o bebê ainda mamar no peito, pois um dos objetivos da aula é preservar a rotina do bebê e da mamãe. Entretanto, os companheiros das mamães também recebem este convite para que se sintam parte deste momento. E para que as mães se sintam tranquilas caso não consigam participar de todas as aulas, e seguras com a presença de seus companheiros.
Os encontros são individuais e têm duração de uma hora para que as mamães se sintam bem à vontade caso precisem dar de mamar, trocar a fralda ou para elas mesmas fazerem um lanche. São realizadas atividades de improvisação e composição musical na maior parte do tempo e quase não há o uso de músicas prontas. Isso se deve ao fato da improvisação acionar partes no cérebro humano responsáveis pelo desenvolvimento da nossa criatividade. Bebês estão no começo da vida, descobrindo todo o universo sonoro ao seu redor; trazer músicas prontas para que apenas repitam o que já existe, na minha concepção, bloqueia esta fase tão importante de descobrimento sonoro, de construção de sua musicalidade, livre de regras e conceitos preestabelecidos. Além disso, dependendo do período de desenvolvimento do bebê a atividade será diferente. Segundo o musicoterapeuta Kenneth Bruscia, bebês de 0 a 6 meses não reconhecem instrumentos como objetos separados, por isso se quisermos que eles sintam estes instrumentos, precisamos colocar na mão deles quando possível ou prender de alguma forma ao seu corpo para que se tornem extensões sonoras de seu corpo. Este mesmo autor também fala da importância dos sons vocais que o bebê realiza como forma de expressar seu estado interno e da relação rítmica que estabelece com a mãe através da sucção. Por isso o momento de mamar deve ser respeitado e até mesmo complementado com uma canção de ninar que pode ser a canção feita para o bebê durante a gestação, caso a mãe tenha essa canção, ou outra criada durante as aulas.

AM – E há benefícios para as mamães também?

AV – Para as mamães, trabalhar com a improvisação e composição musical é bom porque elas também vão descobrindo sua musicalidade e que são capazes de fazer música. Isto rompe com duas falsas crenças: a de que música é algo difícil e que só pessoas que possuem algum dom especial podem se beneficiar de seu aprendizado; e a de que se não estudarmos música desde pequenos nunca vamos conseguir tocar um instrumento ou cantar. São crenças que para a musicoterapia não existem, pois vários estudos e pesquisas nesta área comprovam justamente o contrário. Quando a família possui algum instrumento em casa, como piano, teclado, flauta ou alguma percussão (pandeiro, chocalhos, etc.), as mamães aprendem as músicas desenvolvidas na aula para tocar em casa com seu bebê, criando assim uma autonomia no fazer musical.

AM – Qual o benefício da música na gestação, parto e pós-parto? Existe uma explicação científica?

AV – Durante a gestação, a música pode ajudar a mamãe e o bebê a se prepararem para o momento do parto. Assim, podemos já desde a gestação criar com a mãe uma canção para seu bebê. Esta canção pode ter o uso de instrumentos ou não, mas se a mãe puder cantar, é importante que cante, pois sua voz será reconhecida pelo bebê, lhe trazendo aconchego. Essa canção será cantada durante toda a gestação, sem restrições quanto à sua periodicidade e pode estar presente no momento do parto de duas formas: a própria mãe cantando ou, se ela se sentir mais confortável, gravando a canção com sua voz para que o bebê a escute no momento do parto, criando assim para ele uma identificação sonora ao sair do ventre da mãe. Isso contribui não apenas para o vínculo entre a mãe e seu bebê, mas para que esta criança ao nascer não estranhe tanto o novo ambiente, visto que continua ouvindo a voz de sua mãe. Não queremos aqui ausentar os papais deste processo, eles também podem participar, aprender a canção e cantar, mas o vínculo entre mãe e bebê é mais forte, devido ao fato de que é a mamãe que fica nove meses com uma nova vida crescendo dentro do seu ventre e é através dela que o bebê percebe o mundo interno e externo. Esta canção pode acompanhar toda a vida desta criança, se tornando sua canção, já que a memória musical é a última que perdemos. Para bebês prematuros esta canção é fundamental, bem como manter o bebê sempre em contato com o ventre da mãe para que continue escutando os sons do período gestacional.
A música atua no desenvolvimento do cérebro e no sistema imunológico quando o bebê é estimulado musicalmente também durante a gestação. O musicoterapeuta argentino Gabriel Federico pesquisa a musicoterapia no período gestacional. Suas pesquisas são riquíssimas e seus vídeos de fácil acesso pela internet. Outro exemplo interessante nesta área é a musicoterapeuta brasileira Martha Negreiros, que tem um trabalho belíssimo com as mamães de bebês prematuros.
Durante o parto, há ainda o fato de que o estímulo pode contribuir na produção e regularização dos hormônios presentes neste momento, o que já foi comprovado cientificamente, além de aumentar a produção de células de defesa do nosso organismo. O aumento dessas células de defesa contribui para a produção de neurotransmissores como a dopamina, por exemplo (sobre isso ver o artigo “Evidências dos Efeitos da Musicoterapia no Sistema Imunológico Humano”, escrito por Gustavo Gattino, Júlia Sorrentino e Tâmara Vaccaro, disponível nos Anais do X ENPEMT-Encontro de Pesquisa em Musicoterapia, Salvador BA, 2010).
No pós-parto, os benefícios são inúmeros no que diz respeito ao desenvolvimento neuropsicomotor do bebê. Quanto antes começar a ser estimulado musicalmente, melhores serão os resultados. Se essa estimulação começar a acontecer até os dois ou três anos de idade, seu desenvolvimento cognitivo será maior. Autores como Beatriz Ilari ressaltam a importância da música para o desenvolvimento do cérebro da criança, e a realização de atividades que envolvam o cantar, dançar e brincar como auxílio na aquisição da fala (da mesma autora, o artigo “Bebês também entendem de música: a percepção e a cognição musical no primeiro ano de vida”, publicado na Revista da ABEM de setembro de 2002, disponível na internet).
No pós-parto, as atividades musicais devem considerar cada estágio do desenvolvimento do bebê e buscar contribuir para a harmonia na relação entre mãe e bebê. É necessário respeitar cada manifestação do bebê, interferindo o mínimo possível em sua espontaneidade, criando atividades que possibilitem a participação ativa da mamãe. O uso do sling, carregador de pano, é um excelente acessório para este momento. Também vale salientar que um trabalho musical com bebês não está preocupado com a estética no fazer musical, nem com a execução perfeita dos instrumentos, mas sim em estimular esta criança a descobrir sua musicalidade, desenvolvendo sua criatividade e autonomia musical para mais tarde, quando estiver em idade apropriada, se desejar, começar então a aprender um instrumento e estudar música.

AM – A partir de qual idade o bebê pode iniciar as aulas? E qual o tempo de duração?

AV – O bebê pode iniciar as aulas desde o ventre da mamãe. Mas caso o bebê já seja de colo quem deve sentir qual é o melhor momento para começar uma atividade com música são os pais. Isto está mais atrelado à organização da família e principalmente ao momento em que a mamãe se sentir à vontade para sair com seu bebê. O trabalho com música para o bebê não tem indicação de idade, pois irá beneficiá-lo em qualquer estágio de seu desenvolvimento. E se a mãe estiver sendo acompanhada desde a gestação, já terá aprendido muitas coisas que poderá fazer em casa, no momento oportuno para isso. O encontro com a música é para ser um momento bom.

AM – Quais são os cuidados que a família deve ter ao procurar este tipo de vivência?

AV – O principal cuidado é procurar profissionais que estejam aptos a realizar este trabalho, de preferência que tenham alguma formação na área de educação musical ou musicoterapia. O educador musical terá um olhar mais no sentido de ensino musical, realizando atividades adequadas para os bebês. Já o musicoterapeuta tem um olhar focado no desenvolvimento neuropsicomotor do bebê, podendo ou não entrar no mérito do ensino musical. É importante também que a família estabeleça confiança com este profissional e que se sinta segura para se manifestar em relação ao trabalho que será desenvolvido.

AM – Anamaria hoje é parte da equipe de doulas da Abraço de Mãe! Contate-nos para contratá-la ou saber mais sobre a musicoterapia da gestação ao pós-parto: contato@abracodemae.com

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