Gabriela Zanella, ou Gabi, como a chamamos, é uma das doulas mais antigas de Florianópolis. Tive o privilégio e o prazer de tê-la como doula no meu segundo parto, da Isadora, um parto do qual tenho as melhores lembranças, em que me senti segura do começo ao fim especialmente porque sabia poder contar com essa presença tranquila e ao mesmo tempo forte do meu lado. Gabi é fisioterapeuta, formada pela UDESC em 2007, e hoje trabalha na Prefeitura de Florianópolis, no núcleo de apoio à saúde da família (NASF) como fisioterapeuta (dando suporte a sete centros de saúde) e preceptora da residência multiprofissional de saúde da família. Além disso, é doula de parto do Grupo Amanascer, cuja ideia principal, nas palavras da Gabi, é “apoiar e ajudar os bebês a chegarem no mundo da forma mais suave e harmoniosa possível”.

Conversar com a Gabi Zanella é sempre enriquecedor. Com essa pequena entrevista, queremos compartilhar um pouquinho do seu conhecimento com vocês!

 

Abraço de Mãe – Primeiramente um pouco sobre você. Como você começou sua caminhada no mundo da doulagem?

Gabriela Zanella – Me formei como doula em 2007, mas minha caminhada começou antes… depois do parto do meu primeiro filho, Pedro, em 2004 e que hoje tem quase 12 anos. Durante a gravidez dele me preocupei única e exclusivamente em me preparar fisicamente para o parto. Fazia faculdade de Fisioterapia, sabia que episiotomia era desnecessária e que cesárea deveria ter uma indicação precisa. E quando comecei a ler mais sobre o assunto vi que muitos médicos indicavam cesárea sem necessidade. Procurei um obstetra conhecido por atender partos com respeito.

Pari no HU, hospital público, pois apesar do meu plano de saúde cobrir maternidade privada, eu sabia que se fosse pra lá passaria por uma cesárea desnecessária. Percebi que me preparei fisicamente mas não emocionalmente para o parto e nem me preparei para a frieza e dureza do ambiente que encontrei na maternidade. Pari com ocitocina sintética e analgesia. Foi um parto de cócoras, sem episiotomia, sem laceração, mas com marcas de palavras duras que ouvi durante o trabalho de parto e da sensação de que “não tinha conseguido”.

Após o parto fui ler mais sobre analgesia, ambiência para o parto, humanização do parto. Fui ler Michel Odent… e me encantei. Comecei a escrever meu TCC da faculdade quando o Pedro já tinha 2 anos e escolhi o tema “Métodos não-farmacológicos de alívio da dor no parto”. Pesquisando artigos internacionais eu me deparei por diversas vezes com o termo doula…

Me formei fisioterapeuta em julho/2007, fiz curso de formação de doula em setembro/2007, e de lá pra cá não parei mais de militar a favor do parto humanizado e da autonomia da mulher sobre seu próprio corpo.

AM – A doula de parto hoje já é mais conhecida das pessoas em geral, ela surgiu no cenário antes da doula de pós-parto (tal como a conhecemos hoje). Antes, o trabalho da doula de parto entrava mais no pós-parto do que hoje? As funções de doula de parto e doula pós-parto não se mesclavam um pouco?

GZ – As doulas de hoje eram as mulheres da comunidade que cuidavam das outras mulheres antigamente. Elas tinham experiência pois já tinham parido e cuidado de bebês e repassavam seus conhecimentos para as mulheres que estavam parindo seus primeiros filhos. Ajudavam desde a gestação, algumas vezes auxiliavam a parteira nas suas funções durante o parto,  e no pós-parto cuidavam da mulher, da casa e dos seus outros filhos.

Atualmente vivemos em uma sociedade que não consegue mais prestar esse cuidado de forma tão exclusiva. Hoje o trabalho da doula busca resgatar esse cuidado da mulher no processo de gestação, parto, puerpério… mas é muito difícil prestar este cuidado de forma contínua e portanto surgem as fragmentações do trabalho como a doula de parto e a de pós-parto e que é necessária no nosso contexto atual. A doula de parto geralmente tem o foco na educação perinatal e no acompanhamento do parto e os primeiros dias do bebê, mas de forma mais pontual. A doula de pós-parto, no meu entendimento, faz esse acompanhamento no puerpério de forma mais intensa e focando não só no bebê e na mãe e sim na dinâmica familiar, no cuidado com o ambiente e ritmo. É a doula de pós-parto que oferece esse apoio contínuo nos primeiros dias do puerpério, assim como a doula de parto presta o cuidado contínuo durante o parto, fazendo as taxas de satisfação com o processo serem maiores.

AM – Como a experiência de parto da mulher influencia no seu pós-parto?

 GZ – Na minha experiência vejo que, se formos focar apenas no parto, mulheres que idealizam demais o parto, que não se preparam para “alterações no planejamento”, que não se sentiram respeitadas e ouvidas durante o processo do parto têm a tendência a terem um puerpério mais difícil. Pensando de forma mais ampla incluo também as mulheres que não foram preparadas para o desafio da amamentação e para a grande doação exigida pelo bebê nos primeiros dias. Mulheres que não tem um companheiro(a)/acompanhante preparado também podem sofrer mais com a adaptação dos primeiros dias.

AM – Como doula de parto, você faz uma visita pós-parto para suas clientes. Com base nessas visitas, o que você sente que as puérperas mais necessitam nesses primeiros dias?

GZ – Geralmente faço pelo menos uma visita de pós-parto onde procuro passar orientações de amamentação, recuperação do parto/cesárea, alimentação e como o companheiro(a)/acompanhante pode ajudar. Sinto que o que elas mais precisam é sentir que cada dia é um desafio, um aprendizado, e vejo que ter alguém para dar um suporte no pós-parto é fundamental para que ela possa se entregar de cabeça e sair do ritmo “do mundo”. Seja este apoio prestado por um familiar capacitado/sensibilizado ou profissional, é fundamental que a mulher tenha este apoio próximo, contínuo e sinta-se cuidada, nutrida fisica e emocionalmente.

AM – Como você vê a profissionalização das doulas (de parto e pós-parto)? É algo possível num futuro próximo? Vai melhorar a situação para as doulas ou a formalização pode ter pontos negativos?

GZ – Este é um ponto sobre o qual não me atrevo ainda a opinar. Penso que hoje somos fundamentais para mudar o modelo de assistência ao parto e pós-parto. Hoje muitas coisas mudaram porque doulas se mobilizaram, estudaram e estão mostrando como esse trabalho faz a diferença. Mulheres que sofreram violência obstétrica se formam doulas e auxiliam outras mulheres para que elas não passem por isso, mulheres que tiveram partos respeitosos se formam doulas para auxiliar outras mulheres a alcançarem esse objetivo, mulheres se formam doulas e militam nas mais diversas áreas para a conquista de um parto humanizado, seja na área jurídica, política, de gestão ou na própria assistência… Mas por outro lado penso que o ideal seria que as mulheres voltassem a ter essa cultura de cuidar e apoiar outras mulheres durante esse processo, sem “encaixotar” e tornar “exclusivo” conhecimentos que são da natureza, da fisiologia, do corpo, da história de cada mulher, e que portanto não seria necessário um curso, uma formação, um currículo, uma aprovação…

E isso, essa formação, não é ruim, claro que não… pois estamos neste momento histórico do Brasil em que as taxas de cesárea e desmame precoce são altíssimas, e assim temos que intensificar a disseminação de conhecimentos básicos de fisiologia da gravidez, parto, amamentação e vinculação com os bebês e portanto temos sim que formar novas doulas, mas… num futuro gostaria de imaginar mulheres sendo livres para repassar seus conhecimentos e suas experiências para outras mulheres e resgatando um cuidado instintivo e orgânico.

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