Halana Faria, uma mulher inteligente, estudiosa e super simpática. Nos conhecemos há anos, por amigos em comum. Na época, era ainda estudante de medicina mas já mostrava todo o seu talento e sua dedicação para o curso. Eu estava grávida do meu primeiro filho, o Arthur, e ela sempre me tratava com muito carinho. Conversávamos bastante sobre minha gravidez e ela me emprestava livros com conteúdos de partos mais humanizados. Compartilhamos acampamentos e risadas. Foram momentos felizes e especiais.

Halana se tornou uma excelente médica ginecologista e obstetra formada pela UFSC e Maternidade Carmela Dutra. Ampliou seus estudos e se tornou Acupunturista. Apoia bastante a ideia de que toda a parturiente deveria ter uma doula de parto e depois uma de pós-parto. Acredita que esses momentos são extremamente importantes para a conexão mãe-bebê e que ter auxílio leva a um parto e um pós-parto com mais suavidade.

Atualmente Halana faz mestrado na Faculdade de Saúde Pública/USP orientada por Simone Diniz e é médica em Florianópolis e em São Paulo no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

 

Abraço de Mãe – Quando foi que despertou a vontade de trabalhar com a obstetrícia?

Halana Faria – Foi depois de um estágio de obstetrícia no Hospital Universitário (HU). Foi um dia particular acompanhando um plantão do Marcos Leite, entrei numa sala na penumbra, uma mulher de cócoras sustentada pelo parceiro, silêncio, rito, um templo. Ele apontou as luvas para que eu as calçasse. Me ajoelhei e amparei o bebê tomando um banho de líquido amniótico. Entreguei o bebê para a mulher que chorou com o marido um choro convulsivo de alegria e prazer. Chorei junto. Pensei que se havia algo que deveria escolher para fazer o resto da vida, que houvesse emoção e amor envolvidos. Foi a sensação do desconhecido e deslumbramento de mergulhar no oceano pela primeira vez. Paralelamente também estava estudando, orientada pela Roxana, a crise do modelo de assistência ao parto para escrever meu trabalho de conclusão de curso. Ainda fui ser médica generalista por um ano antes de entrar na Residência.

 

AM – Acho que hoje podemos falar numa crise no modelo de assistência ao parto no Brasil. E naturalmente ela se deve em parte ao modo como a medicina é trabalhada e ensinada nas universidades – altamente tecnocentrada, desvinculada do que é mais  natural. É certo que você não se deixou influenciar por essas concepções. Como isso aconteceu? É possível mudar essa realidade?

HF – Minha porta de entrada na medicina já foi diferente da usual. Eu frequentava encontros do movimento estudantil da Medicina, a DENEM, antes de passar no vestibular. Estava mudando de curso, deixando a biologia para entrar na medicina. Conheci antes da realidade a crítica à educação médica, à lógica mercantil da saúde, a defesa do SUS como projeto de sociedade. Tive contato com o feminismo e com o movimento pela humanização do parto ainda muito cedo e tudo simplesmente fazia sentido. Eu sou otimista quanto a mudança. As mulheres estão cada vez mais informadas, os estudantes das universidades começam a fazer parte da rede de denúncia a abusos na assistência ao parto (vide o que ocorreu recentemente em Brasília), há projetos vivos dentro do SUS e da saúde suplementar que mostram como é possível oferecer um parto saudável como experiência às mulheres. Veja o Sofia Feldman oferecendo parto domiciliar pelo SUS, e a exitosa experiência da UNIMED Jaboticabal que reconheceu a importância de incorporar enfermeiras obstétricas na assistência e incorporou um modelo de assistência com mínima intervenção. Acho que os desafios hoje em termos de “mudar a realidade” são mais sistêmicos. Com o golpe que presenciamos corremos o risco de desmontar o SUS e a ideia de oferecer parto respeitoso para todas as mulheres, e não somente para as que podem pagar por uma equipe. E junto com o SUS os projetos em curso, mesmo que muito pouco efetivados, de casas de parto e centros de parto normal.

 

AM – É difícil ser uma obstetra humanizada atualmente? Quais os desafios que você enfrenta?

HF – Eu passei dois anos em São Paulo pensando a assistência à saúde das mulheres. Me afastei um pouco da assistência ao parto, estava olhando de longe, pensando em como se desatam alguns nós em termos de saúde pública. Me aproximei muito da assistência à saúde das mulheres nas suas diferentes fases. Aos poucos tenho voltado à assistência ao parto. Acho que o maior desafio no setor público tem a ver com o pequeno compromisso das gestões locais (diretores de maternidade) com a efetivação de um modelo que garanta integridade física e emocional às mulheres. Hoje, da maneira como os serviços estão estruturados, a assistência das mulheres depende da sorte de  “pegar um plantonista” bacana (não é assim que elas falam?). Não deveria ser assim. Os/as profissionais deveriam seguir uma linha, um modelo de atenção. E para isso acontecer é preciso empenho, cobrança, rodas de conversa, gestões mais horizontais onde a assistência é discutida e problematizada. É preciso também incorporação de enfermeiras obstetras e obstetrizes na assistência. Quando você tem uma prática contra-hegemônica fica mal visto, é considerada a chata do plantão. É muitas vezes ameaçada ou não recebe apoio diante de denúncias quanto a uma prática que respeita a mulher e o bebê. É uma total inversão de valores você precisar se defender por fazer o que é certo. É cansativo. É triste. No setor privado há mais liberdade de atuação, porque a paciente é sua e não da instituição, mas por outro lado enfrenta-se o risco de instituições (maternidades) que muitas vezes não estão preparadas para situações de risco – anestesista que não está de plantão na maternidade, acesso precário a banco de sangue, etc. Por isso sou grande entusiasta do modelo de casas de parto adjuntas a maternidades públicas preparadas para o suporte, envolvidas como rede de atenção.  Tive a oportunidade em São Paulo de acompanhar de perto o trabalho da Casa Angela, uma Casa de Parto que trabalha na linha da antroposofia e que agora foi incorporada como equipamento do SUS. É 100% gratuita. É um sonho que a gente deveria sonhar junto para Florianópolis.

 

AM – Como você vê o trabalho das doulas de parto e pós-parto hoje?

HF – O benefício das doulas é indiscutível e está bem demonstrado inclusive cientificamente. Mas queria vê-lo mais acessível. Acho incrível que haja tantas formações hoje em dia e que toda mulher seja uma doula em potencial. Talvez no futuro possamos ensinar nas escolas como oferecer apoio físico e emocional às mulheres né? É uma fissura na grande caixa preta que costumava ser a assistência ao parto nas maternidades. A presença de alguém que além do treinamento para apoio às mulheres tem um olhar treinado para a crítica e suspeição das práticas obstétricas garante por si só um elemento de proteção às mulheres. E por isso causa tanto alvoroço que se tente garantir sua presença dentro das maternidades. Mas por outro lado vejo com ressalvas a formação de um mercado que só favorece mulheres com poder aquisitivo para pagar os serviços das doulas. E também as disputas por espaço de atuação entre estas e obstetrizes e enfermeiras obstétricas por exemplo. O trabalho com mulheres em diferentes etapas e ciclos de vida no Coletivo Feminista tem me feito olhar para a gestação e parto como somente uma etapa de muitas outras que precisam de informação e atenção e desmedicalizaçao.

 

AM – Como os médicos em geral, especialmente obstetras e pediatras, podem contribuir com o pós-parto das mães recentes? Ou isso não lhes compete e não tem nada a ver?

HF – Podem contribuir com acolhimento e escuta. Podem contribuir se não medicalizarem mais um momento que é de crise e desafios ajudando a mulher a exigir menos de si mesma, desconstruindo alguns mitos sobre a maternidade, ajudando a mulher a fortalecer sua rede de apoio, incentivando a amamentação mas também dando liberdade de escolha.

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