Juliana Sell é dessas pessoas que você conhece e logo sente a luz que emana! Ouvimos falar dela a primeira vez quando soubemos o que era doula pós-parto e fomos pesquisar na internet se tinha alguém exercendo essa atividade em Florianópolis. Achamos seu nome no site do Amanascer e ficamos louca para encontrá-la. Depois de termos feito nosso curso de doula pós-parto, soubemos que Ju Sell falaria sobre o puerpério numa roda de conversa promovida por um desses maravilhosos grupos de mulheres que há aqui na Ilha. Cancelamos os compromissos da tarde para ir lá conhecê-la pessoalmente. A empatia foi imediata! E hoje temos o prazer de publicar uma pequena entrevista que fizemos com a Ju, com foco no nosso tema preferido: o puerpério.

Juliana Sell é psicoterapeuta formada em Gestalt-terapia e tem especialização em Psicossomática e Psicoterapia de Grupo na abordagem gestáltica. Aprofundou seus estudos com cursos de doula de parto e pós-parto, além de outros em aleitamento materno, e fisiologia e humanização do parto. Hoje também faz parte do COMAMAS – Comitê de Aleitamento Materno e Alimentação Saudável de Florianópolis.

Com tantas habilidades para dar suporte às mães, seu trabalho não poderia ter outro nome: Apoio Materno.

Trabalhar com mães, segundo ela, é sua profissão e seu caminho.

 

Abraço de Mãe – Primeiro um pouquinho sobre você: por que você se tornou doula pós-parto e consultora em aleitamento materno?

Ju Sell – Trabalho com gestantes desde o final da década de 90, quando entrei como psicóloga da Prefeitura Municipal de Florianópolis num posto de saúde. Na época a equipe foi treinada em Manejo do Aleitamento Materno pela Maternidade Carmela Dutra num curso de vários dias. Todos no posto tinham a capacitação para orientar as gestantes e mães no pós-parto sobre o assunto. Além disso, trabalhava com grupo de gestantes, consulta da 34ª semana de gestação com a pediatra. Fiquei encantada com esse trabalho. Porém, fui chamada a ser coordenadora de um projeto na Secretaria de Saúde e fiquei afastada da prática por uns anos. Quando tive meu primeiro filho, desde a gestação, pedi pra retornar ao menos uns dias na semana para atendimentos de gestantes. Então fazia salas de espera num posto de saúde. Participei na época de reuniões sobre a introdução da carteira de saúde do Programa Capital Criança.

Depois que meu filho nasceu, há 15 anos, senti que precisava trocar de rumo profissional novamente. Isso demorou ainda um pouco, tive meu segundo filho, há 11 anos e meio, e então busquei retomar os estudos na área perinatal. Eu já era procurada por amigas na questão de amamentação e adaptação com bebê porque tinha conhecimento anterior, então percebi que era natural eu seguir em frente com esta escolha.

Considerei o pós-parto um período muito delicado, difícil e sensível. E pensei em me aprimorar justamente nesta fase tão transformadora. Nunca mais fui a mesma mulher após o nascimento dos meus filhos. Minha carreira profissional e valores mudaram muito.

Enfim, fiz mais muitos cursos de aleitamento materno, curso de doula e doula pós-parto, workshop com Michel Odent, consultoria de sono e outros na área de humanização. Participei de grupo de estudo dirigido por uma professora da UFSC, que foi uma das fundadoras da REHUNA, também desenvolvi trabalho com ela numa comunidade, através de parceria com Ministério da Saúde e UFSC, com gestantes. Entrei no COMAMAS, Comitê Municipal de Aleitamento Materno e Alimentação Saudável. E tenho parceria com profissionais da área de humanização do nascimento.

 

AM – Que função você exerce com mais frequência – psicóloga, consultora em aleitamento materno ou doula pós-parto?

JS – Depende muito da época do ano. Por exemplo, final do ano passado e início deste, fui chamada direto para atendimento de aleitamento materno. Atendo direto no consultório de psicologia, mas a demanda por amamentação vem em períodos. A questão de doula pós-parto atualmente não consigo atender como é o padrão, de ficar na casa vários dias. Mas existem situações que podem iniciar por uma necessidade e se transformar em outra. Por isso cada situação é única.

 

AM – Quanto você tem sido procurada para trabalhar como doula pós-parto especificamente?

JS – Não tenho disponibilidade de tempo de atuar neste momento como doula pós-parto tal como considero seu trabalho. Por isso faço raramente, pois é passar vários dias com a cliente atendendo à díade, ajudando no vínculo e dando todo suporte que necessitar. O trabalho de psicoterapia no pós-parto, dependendo do caso, também inclui a adaptação emocional da mãe com bebê, suas relações com familiares e casal. E também tenho um trabalho dentro deste enfoque, de atender casais antes do nascimento do bebê para trabalhar questões referentes ao puerpério. Mas não teria como dizer que é um trabalho de doula; é a forma como construí este atendimento com os conhecimentos das duas áreas.

 

AM – Como ser psicóloga ajuda ou atrapalha na doulagem pós-parto?

JS – Eu sou psicóloga há mais de 20 anos, não saberia dizer como é não ser. Para mim me ajuda muito, depende de cada profissional. No meu caso, aproveito meus conhecimentos para estar atenta às questões de relacionamentos, vínculo com bebê, sinais de depressão, relação emocional com aleitamento e outros. Mas o atendimento psicológico propriamente dito só é feito se tiver demanda da cliente. No mais utilizo como ferramenta de trabalho. Minha forma própria de ver a situação, como cada pessoa terá a sua.

 

AM – Como doulas, o que podemos fazer para ajudar as mulheres durante o puerpério? E como alguém próximo à puérpera (da rede de apoio dela) pode ajudar?

JS – De muitas formas. Como mães, lembrando do que fez falta ou foi bom. Ajudando a mulher a se entregar ao pós-parto, a entender essa fase não como uma dependência ou prisão, e sim como uma fase de transformação e de conhecimento sobre si mesma e sobre seu bebê. Lembrar várias vezes que é uma fase transitória, que passa, que o bebê cresce e tudo se organiza e muda. A vida é impermanente, nem o bom nem o ruim ficam pra sempre. Questões práticas também são importantes, a mulher precisa ser atendida em tudo, alimentação, cuidados com a casa, ser protegida de informações do mundo exterior, ser poupada de resolver questões do seu dia a dia. Então, oferecer o que ela precisa para ter tempo e energia para cuidar do seu bebê. O cuidado com o bebê surge somente se a mãe solicitar e se sentir à vontade. Uma doula deve ter atenção de não pegar um bebê ou cuidar dele se não perceber que é demanda da mãe, pois pode fazê-la sentir insegurança. Algumas vezes a mãe pode querer ajuda sim, para tomar um banho, descansar e dar uma breve volta na rua. O foco é o que ela precisa, e não o que a doula pensa que é melhor. Carl Rogers foi um grande terapeuta humanista que desenvolveu um método centrado na pessoa, ou seja, ter empatia, não julgamento, ouvir o outro e seguir junto do ponto de vista do cliente e ser congruente com o que estamos falando. A doula é para estar junto, não levar manual de pós-parto ideal. Na casa e na vida de cada mulher, a realidade é aquela que se adapta àquela família, não a que aprendemos em cursos e livros.

 

AM – Há um perfil das mulheres puérperas que você atende? Que sentimentos e necessidades são mais corriqueiros durante o pós-parto?

JS – Não teria um perfil para descrever. De modo geral sinto que não fomos preparadas para esta mudança de vida, pouco se fala sobre isso, não temos muito contato com mulheres com filhos antes de nos tornarmos mães. Então tudo é muito novo, sem referencial, dando a impressão de uma solidão enorme de sentimentos, pois parece ser a única que está estranhando as mudanças, quando é muito natural se transformar, estranhar, se adaptar à nova vida de mãe, casal, mulher. Algumas pensam em mudar de profissão, algumas sentem-se solitárias, cansadas, querendo mais apoio e compreensão por parte da família e sociedade. Existem ainda muitos julgamentos de como a mulher deve se sentir e se comportar e falta apoiar esse processo e aceitar que é um momento único, delicado e necessário para o vínculo mãe-bebê. E o pai é peça fundamental para dar este suporte.

 

AM – A gente vê que as grávidas se preparam bastante para o parto, esquecendo do pós-parto. Que dicas você daria para que as futuras mamães se preparem também para o puerpério?

JS – Penso que ninguém se prepara para nada, mas buscar conversar com outras mulheres, ajudar outras mulheres com bebês, conversar com companheiro e família sobre suas necessidades no pós-parto, como cada um poderá ser útil, buscar ajuda de profissionais quando sentir que as mudanças estão sendo difíceis. E principalmente, trabalhar em si mesma a entrega, a falta de controle sobre tudo na vida, e saber pedir ajuda. Não é só de sua responsabilidade, o bebê é de um casal, dentro de uma família, de uma cultura, de uma sociedade. É de responsabilidade de todos no entorno dar conta desta mãe de forma que ela consiga se entregar à maternidade. Se algo não está bem, todos estão juntos, não apenas a mulher.

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