Letícia Klempous, uma bela e guerreira mulher, muito inteligente e decidida, de fala doce, se graduou em Nutrição, trabalhando hoje nesse ofício com muita dedicação. Letícia é pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional, em Fitoterapia Funcional e também em Nutrição Materno-Infantil. Membro da Sociedade Brasileira de Nutrição Funcional, construiu seu próprio espaço – Espaço Letícia Klempous de Nutrição Clínica Funcional – onde atende muitas pessoas priorizando a individualidade de cada um.
Também tem formação como Consultora em Aleitamento Materno, o que fortifica seu vínculo com tentantes, gestantes e puérperas.
Nossa amiga Lê, como chamamos carinhosamente, dança conosco há muitos anos, o que estreitou bastante nossos laços. Sempre unidas pela energia da dança e do feminino, acreditamos que sua entrevista irá ajudar e informar muitas mulheres no processo nutricional antes e depois da chegada de um bebê.

Abraço de Mãe – Nós sabemos que você atende muitas tentantes (mulheres que querem engravidar), gestantes e puérperas. Quando você começou a se envolver no mundo da maternidade profissionalmente falando?

Letícia Klempous – Começou na graduação, quando atuei em projetos de extensão dentro da maternidade do Hospital Universitário durante três anos e onde fiz meu primeiro curso de Manejo Clínico em aleitamento materno. Depois disso, já na primeira pós-graduação, meu Trabalho de Conclusão de Curso foi um estudo de caso envolvendo inúmeras desordens reprodutivas, e vi de forma mais profunda como a nutrição e a fitoterapia, que é minha segunda formação, podem contribuir muito nestes casos. Além disso, mais tarde, um diagnóstico de endometriose associado a inúmeras alterações endócrinas, em decorrência de um stress muito profundo ao qual fui submetida, me motivou ainda mais a estudar sobre o tema – e ainda motiva. Sempre brinco que sou o meu caso mais complicado! rs

Nossa história de vida inicia no momento da fecundação, na qualidade do oócito secundário e do espermatozoide que se unirão. Nutrir de forma profunda a mulher que quer engravidar (e o homem também) é, além de tudo, pensar na saúde de uma população adulta. É medicina preventiva.

AM – Como nutricionista, o que você recomenda, de forma geral, para mulheres que querem engravidar?

LK – Pensando em programação e imprinting metabólico, é muito importante que o preparo para a gestação ocorra, pelo menos, seis meses antes do início das tentativas. Isso significa, na prática, que podemos programar o padrão metabólico de uma criança por toda a sua vida desde antes mesmo dela ser um embrião, auxiliando na prevenção de obesidade, doenças cardiovasculares, alergias, entre muitas outras patologias. Precisamos nutrir as mitocôndrias dessa mulher, pois o DNA mitocondrial são elas que passam para o seu bebê: vitaminas do complexo B (cereais integrais, hortaliças verde escuras, beterraba, carnes), zinco (frutos do mar, ervilha, lentilha, semente de girassol, nozes, amêndoas, castanha de caju, castanha do Pará), selênio (castanha do Pará), coenzima Q10 (sardinha, espinafre, cereais integrais), carnitina (carnes e laticínios), ômega 3 (peixes, frutos do mar, óleo de linhaça ou chia prensados à frio) ajudam a manter bons níveis de energia para as mitocôndrias e melhoram a qualidade do óvulo. Da mesma forma que nutrimos, precisamos evitar a exposição excessiva à compostos tóxicos, como PCBs, bisfenol A, ftalatos, parabenos, pesticidas e inseticidas. Eles atuam como desruptores endócrinos e atrapalham o desenvolvimento dos folículos ovarianos, além de serem um dos muitos aspectos que envolvem a fisiopatologia de inúmeras situações que dificultam engravidar, como miomas uterinos, síndrome dos ovários policísticos e endometriose.

Seria importante, além da anamnese nutricional, avaliar alguns parâmetros bioquímicos de nutrientes, dentre eles a vitamina B12, o zinco, o selênio, vitamina A, ferritina e vitamina D, de forma que todos eles estejam próximos aos valores ótimos. Cada um deles atua em etapas diferentes do desenvolvimento embrionário, e engravidar já com um status nutricional adequado é muito mais interessante e simples do que tentar recuperá-los ao longo da gestação.

A suplementação de folato (B9), que comumente é prescrita na forma de ácido fólico, é importantíssima 120 dias antes do início das tentativas, mas sem excesso de miligramagem e sempre associada às demais vitaminas do complexo B, pela sinergia entre eles – especialmente a vitamina B12, já que o excesso de B9 pode diminuir os níveis de B12. O excesso de folato na forma de ácido fólico, ou seja, não metabolizado pelo fígado (e isso aumenta em mulheres deficientes em zinco), pode aumentar inclusive o risco de diferentes tipos de cânceres pelo risco aumentado de hipermetilação de regiões promotoras de genes supressores de tumores. Ou seja, silenciamento de genes que não deveriam ser silenciados.

AM – E para gestantes?

LK – A regrinha de diminuir a exposição à compostos tóxicos vale para cá também, já que é sabido que bisfenol A (BPA) passa de mãe para bebê através do cordão umbilical. Sabe-se que crianças cujas mães foram muito expostas a BPA podem ter alterações na produção de adiponectina e leptina, o que aumenta o risco de desenvolvimento de obesidade e diabetes tipo II. Evitar o consumo, na rotina, de recipientes plásticos, filmes plásticos, garrafas plásticas, etc. é um ótimo começo.

A primeira colonização bacteriana ocorre na gestação, não apenas durante a passagem do bebê pelo trato vaginal durante o parto. Manter uma microbiota equilibrada, consumindo alimentos ricos em probióticos, como iogurte natural sem açúcar (levando aqui em consideração a individualidade de cada mulher), kefir ou manipulado em boas farmácias, rica em prebióticos (cascas de legumes e frutas, biomassa de banana verde, batata doce, semente de linhaça) e com baixo consumo de aditivos químicos auxiliam na boa manutenção desse microbioma. Probióticos não só beneficiam o bebê mas também a mãe, já que auxiliam na prevenção de candidíase, infecções do trato urinário, partos prematuros e até mesmo diabetes gestacional.

E importa ressaltar que na gestação a sensibilidade à insulina está reduzida, chegando à 50% a partir da vigésima quarta semana gestacional (período onde é solicitada a curva glicêmica). Ou seja, é importante que a gestante evite o consumo de alimentos de alto índice e carga glicêmicos, como farinhas de cereais (farinha de arroz, farinha de trigo, farinha de milho, farinha de mandioca, polvilhos, tapioca), dando preferência à raízes e tubérculos (aipim, mandioquinha, batata doce, cará, inhame, abóbora), aveia, quinoa, amaranto, e sempre associar os carboidratos a boas fontes de gordura (coco, óleos vegetais prensados à frio, sementes, abacate) e fibras (hortaliças, biomassa de banana verde, frutas com casca, vegetais com casca). Comer mais de duas porções de frutas numa mesma refeição também não é interessante – melhor consumir apenas uma porção junto de uma fonte de gordura ou fibra extra, com exceção se a segunda fruta tiver índice glicêmico baixíssimo (coco, abacate, frutas vermelhas, limão).

O consumo de ômega 3 é imprescindível, pois influencia positivamente sobre a formação neurológica e da retina do bebê, além de auxiliar na prevenção de Diabetes Gestacional e pré-eclâmpsia. As melhores fontes são os peixes marinhos pequenos e os frutos do mar de forma geral (os moluscos bivalves, como marisco, berbigão e ostra, são contraindicados na gestação), o óleo de linhaça e o óleo de chia prensados à frio, além de algumas algas marinhas.

AM – Há alimentos especialmente recomendados para mulheres no pós-parto?

LK – Sabe-se que o leite materno é rico em DHA (ácido docosahexaenoico, da família do ômega 3), mas se a mãe consome bastante DHA na sua alimentação, esse teor se torna ainda maior. Se necessário e possível, um bom suplemento contendo pelo menos 500mg de DHA também é bem-vindo. O ômega 3 também ajuda a prevenir depressão pós-parto, especialmente quando seu consumo já era significativo desde a gestação.

O consumo de alimentos ricos em ômegas, de forma geral, sempre é interessante (e aqui, deve-se levar em consideração as individualidades bioquímicas da mãe): abacate, avocado, açaí sem xarope de guaraná ou açúcar, nozes, amêndoas, macadâmia, castanha de baru, castanha do Pará, pistache. Os Triglicerídeos de Cadeia Média (TCM) presentes no óleo de coco extravirgem e na polpa do coco também são ótimas opções, já que estimulam a microbiota intestinal benéfica da mãe – e, por consequência, do bebê.

As proteínas (animais ou vegetais) devem também ser priorizadas, especialmente para mães que amamentam em livre demanda e que podem perder peso de forma muito brusca (e incluímos nessa perda de peso a massa magra também); seriam elas encontradas nos cogumelos, carne bovina, frango, pescados, lentilha, grão de bico, ervilha, feijões, quinoa, amaranto, ora-pro-nóbis, ovos e tofu orgânico – tudo, como sempre, dependendo de cada caso.

AM – E há comidas que não devem ser consumidas por mães recentes?

LK – De forma geral, sempre digo que “comida de verdade” (não produtos alimentícios) é sempre a melhor opção. Aí o que entra em jogo é a individualidade bioquímica e genética: se determinado alimento não é bem digerido pela mãe, gerando gases, distensão abdominal, diarreia ou constipação, a chance deste mesmo alimento gerar desconforto para o bebê é maior.

AM – É fato ou mito que o que a mãe come passa de certa forma para o bebê através do leite? E quanto a mulheres que têm pouco acesso a alimentos nutritivos mas que ainda assim produzem um leite rico e saudável para o seu bebê?

LK – Isso ocorre mais durante a gestação do que a amamentação. São nas primeiras oito semanas gestacionais que os neurônios começam a ramificar da parte principal do cérebro para áreas diferentes do corpo (como a boca do bebê), e as papilas gustativas começam a se formar na região que se tornará a língua. Já com 16 semanas, o bebê começa a engolir líquido amniótico e esse flavour ali presente interage com as papilas gustativas, e isso aumenta cada vez mais até o final da gestação. Vale lembrar que sensibilização alimentar ocorre na gestação, não na lactação. Daí a importância de não restringirmos 100% nenhum alimento na gestante (salvo exceções).

O leite materno é espécie-específico e por isso sempre a melhor opção para o bebê. Muitos são os fatores que influenciam, especialmente porque o solo ao longo do Brasil (e do mundo) tem uma composição muito diferente. No Brasil, por exemplo, é comum termos falta de molibdênio e cobalto no solo, o que influencia diretamente na composição dos alimentos, assim como o solo de Santa Catarina é pobre em boro. Algumas mulheres possuem melhores capacidades absortivas do que outras, mas não necessariamente o leite materno sofre influência direta do status de todas as vitaminas e minerais da mãe.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *