puerperioA origem da palavra puerpério não traduz com precisão seu significado hoje. Puerperium = puer do latim ‘menino’, + par/per/parere, que quer dizer parir. Os dicionários de etimologia indicam que primeiro teria sido usado o adjetivo “puerperal”, no século 18, em depressão puerperal, febre puerperal, hemorragia puerperal, por exemplo, enfim eventos físicos e psicológicos que ocorriam após a mulher ter parido uma criança. Depois disso é que veio o substantivo “puerpério” indicando o período que se segue ao nascimento do bebê.

Quanto dura o puerpério?

Outra coisa que também não corresponde precisamente à realidade hoje é o tempo de duração “oficial” do puerpério, 40 dias, que, como se sabe, levam em conta apenas os aspectos físicos do período, quando uma das coisas que mais “pega” são as questões emocionais.

Nós, da Abraço de Mãe, advogamos a importância de dedicar umas poucas horas, durante a gravidez, ao planejamento do puerpério. Dizemos que poucas horas bastam, pois sabemos que a gravidez em si, com os cuidados e exames pré-natais que exige, o “enxoval” do bebê bem como, naturalmente, o nascimento do bebê tomam a maior parte da nossa energia e pensamento durante a gestação. Mas algumas horas de planejamento prático do pós-parto podem ajudar bastante. Nos referimos a pensar em quem faz parte da sua rede de apoio, combinar com as pessoas quem vai cuidar da limpeza da casa, cozinhar (ou congelar comida), quem vai lidar com as visitas, e outras coisinhas de ordem prática, sobre as quais tratamos em mais detalhes no e-book gratuito que você pode baixar aqui. Organizar o lado prático auxilia a mãe a poder dedicar-se exclusivamente ao bebê, o que é fundamental. Mas isso não a livra do turbilhão emocional, que acontece com a maioria de nós ao nos tornarmos mães.

Os hormônios e o emocional no puerpério

A explicação fisiológica para a reviravolta emocional põe a “culpa” nos hormônios. Não bastasse a queda brusca da progesterona e do estrogênio, que estavam em alta na gravidez, entra em cena a prolactina (para facilitar a amamentação), que nos deixa mais sensíveis.

Tirando isso, temos que considerar que acabamos de passar por um dos momentos mais importantes da nossa vida, momento inesquecível e que nos marcará para sempre. Seja a combinação de hormônios que for, é impossível não ficar mais sensibilizada, tocada, com o coração e alma abertos. A satisfação da mãe com o seu parto, seja ele normal ou cirúrgico, interfere bastante no nível do turbilhão emocional do puerpério. Aquela que guarda boas lembranças do nascimento do seu bebê, ainda que não tenha sido exatamente como sonhou, vai se sentir mais forte e empoderada para enfrentar a mudança de vida pela qual passa. Já o sentimento de frustração e dor que algumas mães têm quando lembram do parto apenas contribui para deixá-las fragilizadas e ainda mais sensíveis.

A perda da identidade

Outra coisa importantíssima na fase puerperal, que tem papel fundamental nas nossas emoções, é a perda da identidade. Já não somos mais quem éramos, mas não sabemos ainda quem seremos. Nossos referenciais estão todos longe da nossa realidade – trabalho, sair com amigos, tomar um café na rua, almoços de família, ir à praia/cinema, etc., parecem agora lembranças distantes. Só que esses fazeres e prazeres nos diziam quem éramos. Agora, ao revés, estamos lidando com situações novas, e fazer coisas pela primeira vez também pode dar um nervoso. Para “agravar”, desta vez é sério. Não é um simples frio na barriga ao dirigir pela primeira vez depois de tirar carteira de motorista, não é o nervosinho que dá antes de uma apresentação artística de que participamos. É um ser humano que depende de nós. Pra tudo. É um bebezinho que não vem com manual e que não sabe falar. É uma responsabilidade e tanto!

O cansaço constante

O cansaço das noites mal dormidas vem adicionar a essa equação. Seja porque o bebê chora, seja porque levantamos de hora em hora para amamentar, seja porque nos preocupamos tanto com o bebê que abrimos o olho de tempos em tempos para dar aquela checadinha se está tudo bem, seja por qual motivo for – afinal cada bebê é único e cada família tem a sua experiência –, o fato é que a perda das longas noites de sono também tem seu impacto. Qualquer ser humano cansado já fica mais irritável, com oscilação de humor, mais sensibilizado. O que dizer da puérpera? Eu lembro que as noites em que eu via o sol nascer, no desespero de não ter conseguido dormir sequer uma hora seguida, davam origem aos dias em que eu mais chorava, em que eu mais me questionava: o que foi que eu fiz?

O que está acima é o que eu diria que todas temos em comum (com raras exceções).

Há mulheres que enfrentam essa fase sozinhas, sentindo-se desconectadas do seu parceiro, sem família ou amigos por perto e sem a possibilidade de delegar as tarefas práticas da casa para outras pessoas. Há mulheres que, ao contrário, não conseguem ficar sozinhas nunca porque as visitas não param de vir, e vêm acompanhadas de palpites, por vezes de julgamentos. Nessas situações, o puerpério toma proporções que eu nem sei medir.

Como ajudar?

Tem muita coisa para ser falada sobre o emocional no puerpério. E ainda teremos textos específicos sobre cada elemento desse período. Mas o que eu gostaria de deixar claro é que o apoio emocional pode ser simples. Um mero carinho, uma pergunta sobre o seu bem-estar, o da mãe, pode fazer diferença. Como você está hoje? Como eu posso te ajudar? Não podemos pensar apenas no bebê e esquecer da mãe. Ajudá-la a ter oportunidade de ter pequenos prazeres (às vezes uma xícara de chá sorvida com tranquilidade, um folhear de revista, um banho demorado) auxilia na reconexão da mãe consigo mesma. Outras vezes basta apenas ouvir, deixar a puérpera falar sobre seus sentimentos sem julgá-la.

O turbilhão emocional no puerpério pode ser complexo. Lidar com ele do ponto de vista de quem está com a mãe pode ser simples.

“Quando as mães encontram espaços nos quais o que lhes acontece não só é compartilhado, mas, além disso, é aconselhável, o pós-parto deixa de ser um monstro temido e pode se converter numa mágica travessia. Definitivamente, o puerpério é uma abertura do espírito.” (Laura Gutman, A maternidade e o encontro com a própria sombra)

 

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