Parte I – A reação à medicalização do parto

Nos dias de hoje as doulas vêm, aos poucos, encontrando seu lugar. Sua luta pela humanização do parto, pelo respeito ao protagonismo da mulher e pelo seu próprio reconhecimento já ecoa na mídia brasileira. Mais e mais cidades têm aprovado projetos de lei para regulamentar a presença da doula nos partos hospitalares. E a cada projeto colocado em pauta, abre-se uma porta para as doulas, abre-se uma oportunidade para que sua voz seja ouvida. Já não é assim tão difícil conhecer pessoas que saibam o que a doula faz ou que ao menos já tenham ouvido falar dessa nobre função.

Mas de onde vem esse movimento? Quando surgiu e por quê? Uma pesquisa na internet revela a origem da palavra doula e mostra alguns sites profissionais de doulas atuantes, mas não se encontra nada mais profundo sobre a história da doulagem contemporânea no Brasil e no mundo. Insatisfeitas com essa situação, nós da Abraço de Mãe fomos buscar entender melhor como chegamos até a doula tal como a conhecemos hoje. Afinal, a história da doulagem é também a nossa história.

Conversando com doulas dos Estados Unidos – pois é lá que tudo começa – descobrimos alguns livros publicados naquele país que nos dão a resposta. Assim, esse post de hoje tem como fonte principal a obra “Birth Ambassadors”, da Christine H. Morton e Elayne G. Clift. Vocês vão ver que a história dos EUA a esse respeito se repete no Brasil com alguns anos de atraso. O que agora conhecemos de lá tem acontecido por aqui.

Como se sabe, a palavra doula vem do grego e se refere a uma mulher que serve outra mulher.  Em 1977, a antropóloga Dana Raphael adotou esse termo para fazer referência a mães experientes que auxiliavam novas mães na amamentação e nos cuidados com o recém-nascido nas Filipinas. Notem que essas mulheres eram como doulas pós-parto que atuavam na comunidade para dar não só apoio informacional mas também emocional  às mães. Adoramos saber que foram mulheres atuando no pós-parto que primeiro tiveram vínculo com a palavra doula!

Poucos anos depois, os médicos Marshal Klaus e John Kennel, pesquisando os resultados de partos atendidos por mulheres que davam suporte a outras mulheres durante o nascimento de seus bebês, usaram pela primeira vez o termo em relação ao que hoje conhecemos por doulas de parto.

O papel da doula, por sua vez, foi formalmente concebido em 1979, com a fundação da casa de parto “The Birth Place” (que fechou em 1994), na Califórnia. Seus fundadores conheciam a pesquisa mencionada acima e colocaram a doula, inicialmente chamada de “assistente de parto”, como um membro central da equipe da casa.

Não à toa o primeiro treinamento para doulas dos EUA foi feito na casa “The Birth Place” em 1985. O foco do curso à época era o mesmo de hoje: apoiar e nutrir física e emocionalmente a mulher durante o parto, fornecer informação e proteger a memória da sua experiência de parto, isto é, do nascimento de seu filho (DONA International – www.dona.org).

Mas em que contexto social nasceram as doulas?

Elas passaram a atuar como resposta à medicalização extrema dos partos, o que ocorreu em meados do século passado, como observaremos a seguir.

Entre os anos de 1930 e 1960 os médicos passaram a ganhar autoridade em relação à saúde da mulher na gestação e às consequências do parto, e o parto passou então da casa para o hospital. Com essa ruptura, perdeu-se a tradição de mulheres dando suporte a outras mulheres durante o nascimento de seus bebês. O que antes era um evento social passou a ser um evento médico, hospitalar. O parto passou das mãos da parturiente para as mãos dos médicos obstetras. Perdeu-se o apoio de “muitas-para-uma”, que invariavelmente acontecia quando a mulher tinha o filho em casa.

Se, por um lado, o desenvolvimento científico trouxe à tona riscos reais que existiam na gravidez e no parto, por outro lado provocou uma substituição do valor comunitário da rede de apoio pelos valores científicos da expertise (autoridade) e da tecnologia. Também contribuiu para isso, ou seja, para a fragmentação do apoio centrado na mulher, a urbanização ocorrida a partir dos anos 1920.

Como é de se imaginar, o significado que passou a ser dado ao nascimento a partir de então se baseava na medicalização e na profissionalização. Promessas de segurança levaram à adoção de práticas médicas que se tornaram rígidas e que não consideravam a experiência subjetiva de cada mulher no parto. Vendeu-se a ideia de que no hospital as mulheres tinham sua vida e saúde protegidas, sem a consciência do que se estava perdendo com essa concepção.

Já na década de 1950, nos EUA, houve registros de casos de violência obstétrica (através de cartas de reclamação enviadas a jornais) que envolviam mulheres amarradas à cama por horas, partos adiados até que o obstetra chegasse na maternidade, abusos verbais por parte da equipe, entre outros.

Em meio a isso, ativistas do parto começaram a se organizar e a ensinar métodos para partos naturais. O foco então era educar as mulheres sobre o parto, garantir aos parceiros (pais) permissão para estar junto à sua mulher e ajudar as parturientes no processo de parto. Não se questionava a autoridade do obstetra.

Com o contínuo desenvolvimento tecnológico, como por exemplo o uso da anestesia, cresceu também o monitoramento e o uso rotineiro de outras intervenções. Embora ativistas já questionassem o efeito dessas tecnologias para mães e bebês, o lucro gerado pelo uso do maquinário tecnológico consolidou as relações entre a indústria da saúde, as companhias de seguro e o governo. Assim, o parto medicalizado é que se tornou o “normal”.

Nesse meio-tempo os cursos de educação para o parto – ou cursos pré-natais, como chamamos aqui no Brasil – continuavam acontecendo, adaptando sua visão às mudanças em voga na sociedade. Muitos deles, em resposta à medicalização do parto, ensinavam as técnicas de relaxamento de Lamaze e Dick-Read, que ficaram bastante conhecidas. Outros cursos estavam vinculados a hospitais e assim limitavam-se a falar da acomodação na maternidade e dos procedimentos de rotina, além de ensinar o que seria esperado das mulheres durante o parto (leia-se a submissão ao dizer da equipe médica), em vez de fornecer informação independente para o alcance do protagonismo da parturiente.  Não ensinavam o “parto natural”, mas sim o “parto preparado”.

A volta do apoio emocional ao parto iniciou-se na década de 1970 quando mulheres que queriam ter um parto natural e não tinham uma pessoa de apoio pediam às instrutoras de seu curso pré-natal que as acompanhassem no parto. A partir daí cresceu a ênfase em como a mulher se sentia emocionalmente durante o parto e como isso influenciava no pós-parto e na sua transição para a maternidade. Outra preocupação estava ligada ao impacto das práticas usuais na experiência dos recém-nascidos.

Apesar de as educadoras perinatais atenderem partos, elas não recebiam treinamento para tal função nem chamavam a si de doulas. Acabavam se sentindo inseguras quanto ao papel que deviam desempenhar. Por outro lado, elas se deram conta de que a educação pré-natal por si só não era suficiente para que as mulheres passassem por um parto natural com confiança e acolhimento; e de que uma pessoa de apoio treinada poderia fazer muita diferença.

Enquanto isso, no âmbito da ciência, na década de 1980, através do seu interesse em pesquisar os fatores que favoreciam ou prejudicavam o vínculo mãe-bebê , os cientistas Klaus e Kennel, antes citados, acabaram comprovando que a presença da doula durante o trabalho de parto reduz as taxas de cesariana, diminui a duração do parto em até 25%, o uso de ocitocina em 40%, de medicamentos contra dor em 30%, além de reduzir o uso do fórceps em 40% e os pedidos de anestesia em 60%!

À medida que crescia o número de mulheres que acompanhavam outras mulheres no parto, também se debatia a atividade de doulagem em si. O que exatamente faziam as doulas? E o que elas não faziam? Vários questionamentos foram trazidos a discussão. Entender como se deu esse processo pode ajudar a sociedade como um todo e as próprias doulas a entenderem melhor a razão de ser dessa função que, embora por vários motivos ainda esteja ao alcance de poucas mulheres, pode ser a diferença fundamental entre uma experiência positiva e uma negativa da gestação ao pós-parto.

Continuaremos falando do renascimento das doulas na próxima semana. Não percam!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *