Definindo funções e consolidando seu espaço

 

Na semana passada vimos a primeira parte da história do surgimento das doulas – a mudança de paradigma de parto, que passou a ser um evento medicalizado e hospitalar, o uso da palavra doula, pesquisas envolvendo a doulagem. Nesta semana seguimos com o debate de algumas décadas atrás que definiu melhor as funções da doula e com o debate de hoje que busca saber onde estamos e para onde vamos.

Quando mais mulheres começaram a prestar apoio a outras mulheres durante o parto e o pós-parto, ao mesmo tempo em que a palavra doula era ouvida em mais lugares, também se começou a discutir a atividade de doulagem em si. O que exatamente faziam as doulas? E o que elas não faziam?

Alguns achavam que o seu treinamento deveria incluir o monitoramento do coração do feto e a verificação da dilatação, enquanto outros defendiam que o papel da doula não deveria coincidir com nenhum outro da equipe – seja dos obstetras, parteiras ou enfermeiras (ideia que predominou, como se sabe). Também já se discutia se tal atividade deveria ser um serviço voluntário ou pago.

De maneira geral, havia dois perfis de mulheres que faziam o treinamento de doula nesses primeiros anos: mulheres que estavam empolgadas com a possibilidade de acompanhar partos mas que acharam difícil conciliar a atividade com sua vida pessoal e acabavam não indo em frente, e mulheres que aspiravam se tornar enfermeiras obstétricas (midwives) e  continuavam seus estudos depois de obter o treinamento para ser uma pessoa de apoio.

Os cursos e a definição de quem seria a doula foram se clarificando na década de 1990 a partir do trabalho de diferentes instituições. Ficou claro que o serviço da doula ia além de apenas acompanhar o momento do parto, incluindo um extenso apoio informacional no pré-natal e visitas durante o pós-parto.  Suas atividades abrangiam, como é hoje, planejamento do parto e do pós-parto, técnicas de alívio não farmacológico da dor, apoio emocional individual e proteção à memória do parto (que as novas mães guardem uma boa lembrança desse momento único na vida – mais sobre isso em outro post!).

Outro dilema que veio à tona foi como a doula deveria lidar com mulheres que escolhessem certas intervenções consideradas pela doula desnecessárias e prejudiciais. A partir desse debate, vigorou a conclusão de que a doula é uma assistente de apoio não clínico que valida as escolhas que as mulheres fazem a respeito de seus próprios partos.

O nome doula ainda não era usado por todos. Alguns preferiam o termo “profissional de apoio ao parto”, outros “assistente de parto”, “guias de parto” ou “especialista de apoio ao parto”. Todavia, considerando que a palavra doula vinha sendo usada pelos pesquisadores Klaus e Kennel, as fundadoras da DONA International –  Doulas of North America, ao incorporarem no nome de sua organização a palavra, não sem discussão, consolidaram definitivamente a DOULA como a assistente profissional de apoio ao parto e pós-parto, em 1992.

Outras organizações surgiram, como a CAPPA – Childbirth and Postpartum Professionals Association, em 1998, a primeira a separar as atividades em doula de parto, doula de pós-parto, educadora perinatal, e mais tarde consultora em aleitamento materno, tal como hoje as concebemos.

As mudanças nas técnicas de manejo da dor, na tecnologia obstétrica e nos papéis profissionais envolvidos no nascimento que ocorreram nos últimos 100 anos abriram um espaço único para o exercício da doulagem. Com o crescente movimento do parto humanizado (o qual pretende – esclareça-se – que a mulher seja a protagonista de seu parto, utilizando a tecnologia, se assim escolher, com informação e consciência) e com o desenvolvimento e acessibilidade da internet, o trabalho da doula foi ganhando reconhecimento e aceitação. Seguramente, em especial no Brasil, estamos no começo da caminhada. Somos uma reação à cultura do endeusamento da tecnologia e seu uso geral e indiscriminado, que culminou na perda do apoio coletivo e comunitário que era (e ainda é em muitos lugares do globo) uma constante na vida das mulheres. Somos a resposta à necessidade de suporte emocional e informacional, imprescindível nesse momento de transição de vida tão significativo. Estamos resgatando a cultura do apoio de mulher para mulher, e também da sociedade para a mulher.

Os desafios que temos pela frente são muitos. Questiona-se se o trabalho da doula pode provocar mudanças reais no sistema de saúde como um todo. Questiona-se se, como profissionais não clínicos de fora do hospital, pode-se mesmo reverter as altas taxas de cesarianas desnecessárias no nosso país. Questiona-se se o modelo de apoio ao parto baseado largamente na experiência de mulheres brancas de classe média pode gerar impacto em todas as mulheres. Questiona-se também se as doulas podem estimular um maior número de nascimentos acompanhados por parteiras e enfermeiras obstétricas. Questiona-se ainda se podemos diminuir ou acabar com a violência obstétrica, tão comum em partos hospitalares, sem desafiarmos a autoridade médica.

Eu digo sim, podemos. Não faremos a mudança sozinhas, mas somos uma peça fundamental na engrenagem de humanização e respeito ao parto e consequentemente à mulher, sem a qual a mudança não acontecerá.

Somos importantes. Somos necessárias. Servimos. Somos doulas.

2 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *