puerperioNós, da Abraço de Mãe, sempre pensamos no puerpério como um turbilhão. Um turbilhão que acontece física e emocionalmente; no corpo e na alma. É mais fácil falar da parte física. O corpo aos poucos voltando a ser o que era antes da gravidez (tirando a parte da amamentação). O útero se contrai e volta para o seu lugar, o sangramento por pelo menos duas semanas se você teve parto normal, os cuidados com a cicatriz da cirurgia se você passou por cesariana, a recuperação do períneo, especialmente se houve laceração ou episiotomia, a queda brusca de hormônios, sobretudo da progesterona (ao mesmo tempo em que sobem os níveis de prolactina, se você amamenta).

Com base nas mudanças corporais, há quem estime a duração do puerpério em 40 dias, com classificações que passam pelo puerpério imediato (até 4 horas após o parto), puerpério mediato (até o 10° dia), puerpério tardio (até o 45° dia) e puerpério remoto (até a recuperação da função reprodutiva, dizem alguns). Mas a verdade é que o puerpério, emocionalmente falando, dura bem mais que essas seis semanas.

O turbilhão emocional vem para nos marcar para sempre. Oscilamos entre alegria intensa e tristeza imensa. Entre familiaridade e estranheza. Entre satisfação e inquietações. Entre gratidão e questionamentos. Tanto se passa nesta travessia entre o que fomos e o que seremos! Tal qual a crisálida, nos transformamos. E é intenso, muito intenso. Mas pode ser suave. Intenso e suave, assim mesmo, nesse aparente contraditório.

Você precisa saber que

não está errado sentir melancolia ou chorar
não está errado perguntar-se “o que eu fiz da minha vida?”
não está errado achar tudo tão difícil e não saber bem como fazer o que você nunca fez antes
não está errado não curtir com prazer cada momento agora que seu bebê está “aqui”
não está errado não querer receber visitas e sentir vontade de ficar de pijama o dia todo
não está errado ter pouco espaço para seu(sua) parceiro(a) nesse momento e chorar ao vê-lo(a) chegar ou sair
não está errado ter sua libido abaixo de zero, mesmo depois dos 40 dias
não está errado precisar de ajuda
não está errado sentir falta da vida de antes ou de quem você era
não está errado desejar que as próximas semanas passem voando e que chegue logo o tempo em que você já conhece bem seu bebê, em que vocês já criaram juntos uma nova rotina, em que você já se reconheça como mãe, como esta nova mulher.

Permita-se. Permita-se sentir sem culpa o que sente. Permita-se respeitar a sua vontade acima de convenções sociais. Permita-se “o encontro com a própria sombra”, nas palavras da psicoterapeuta argentina Laura Gutman, e saia dessa experiência consciente da mulher incrível que você é. Uma mulher que está se dispondo ao aprendizado eterno de ser mãe. Uma mulher que vai constantemente buscar o seu melhor, dentro das suas circunstâncias, do seu mundo, do seu mais profundo “eu”.

É preciso falar abertamente sobre o puerpério, dos seus momentos felizes e daqueles nem tanto, sem medo de ser julgada. É necessário que nós, mulheres-mães, apoiemos umas às outras na caminhada, a começar pelo pós-parto.
Com um pouco de planejamento, uma certa dose de comunicação e muito apoio, o pós-parto pode não ficar na memória como um período “ruim”, “horrível”, como costumamos ouvir das mais diversas mulheres. Para o bem de toda a família, para que se alcance o melhor possível, é preciso que no pós-parto a mãe e seu bebê tenham absoluta prioridade.

No nosso mundo ocidental, individualista, onde se perde cada vez mais e tantas vezes o sentido de comunidade, as doulas pós-parto vêm desempenhar um importante papel. Laura Gutman soube como ninguém descrever a importância da nossa participação na jornada puerperal:

A doula [pós-parto] interpreta a “experiência interior” de cada mãe, avalizando todas as mudanças invisíveis e traduzindo para a linguagem corrente a realidade do puerpério. Não se trata de ajudá-la a cuidar do bebê, nem de lhe dar bons conselhos, mas de acompanhar o mergulho no universo sutil e invisível do recém-nascido. Sua função principal é a de maternar a mãe, para que esta possa, então, maternar seu filho.

As doulas têm uma função a exercer: a de nomear cada sentimento “absurdo”, desproporcionado ou incompreensível da nova mãe. Pessoalmente, espero que o ofício de doula passe a fazer parte do inconsciente coletivo feminino. Que nós, mulheres, saibamos durante e depois de parir que merecemos a presença de uma doula que nos abra as portas dos Mistérios da Maternidade. Porque a partir de cada mãe puérpera que encontra a si mesma, o mundo inteiro se encontra. Cada doula que orienta uma puérpera cura a si mesma e cura todas as mulheres. Cada palavra de apoio é uma palavra de paz e de boas-vindas à criança. As doulas nos incitam a confiar em nossas escolhas, decidindo de acordo com nossas crenças mais íntimas. Elas nos recordam que somos merecedoras de todos os cuidados, porque disso depende o futuro.

O que a puérpera precisa é de tudo que está contido num abraço de mãe: aconchego, acolhimento, apoio, conforto, carinho. Só assim será possível vivenciar um puerpério intenso mas suave.