Sendo amiga da Lê há tanto tempo, quando ela engravidou Dani e eu, Dulce, já nos colocamos disponível para, mesmo à distância – pois me mudei pra Nova Zelândia uns meses depois – ajudá-la de alguma forma no seu pós-parto. E tivemos a honra de ela ter nos permitido fazer parte desse momento tão especial, intenso e delicado na vida de quem se torna mãe. Acompanhamos seus desafios, suas dores, seus processos de aceitação da sua realidade, seus caminhos, ora tortuosos, nesse começo de maternidade. Foram inúmeros áudios no whatsapp, vídeos, palavras compartilhadas. Sentimentos que sempre procuramos acolher e acalentar.

A questão da amamentação interfere bastante na experiência puerperal da mãe recente. E a da Letícia, como nutricionista e mulher bem informada, foi intensa… muito intensa. Temos a sorte de ela ter escrito tudo aqui pra gente, pois na experiência de uma mãe outras se confortam.

Obrigada, querida! Estaremos aqui sempre prontas a te abraçar!

 

Por Letícia Klempous

Senta que lá vem textão sobre amamentação – e porque precisamos falar sobre isso.
Mas não é texto falando dos muitos benefícios de amamentar exclusivamente até os 6 meses. Que bebê que mama só no peito tem a imunidade melhor, a microbiota mais equilibrada, a saciedade mais desenvolvida. É falando que eu, nutricionista materno-infantil, com capacitação em amamentação por 3 instituições diferentes, suspendi a amamentação após os piores 23 dias da minha vida. Eu tinha o maior amor do mundo e a maior dor do mundo. E eu chorei todos estes dias, muitas vezes ao dia.

Eis que desenvolvi Fenômeno de Raynaud, candidíase mamária e, como a cereja desse sádico bolo do puerpério, as clássicas fissuras. Bastavam estas últimas para doer, mas as duas primeiras tornaram o processo insuportavelmente doloroso. Eu passaria por outro trabalho de parto, mas não passaria por aquilo de novo. Tratei de todas as formas, procurei todas as literaturas possíveis nos poucos intervalos que eu tinha enquanto coletava leite. Recebi muita ajuda – minha doula Camilla, minhas amigas e doulas Dulce e Daniela (eternamente grata 💜) e minha mãe Maria, que cozinhou pra mim todos estes dias ❤️. Mas nada melhorava. A candidíase, muito devagar, foi melhorando – porque ela eu tinha conhecimento e fiz tratamentos paralelos. Mas a dor do Raynaud só agravava. E doía mesmo sem amamentar, 24h por dia era aquela sensação de agulhadas e como se um bisturi cortasse meu mamilo. Então eu desisti.

Dar chupeta e mamadeira gera confusão de bicos e aumenta muito o risco do bebê largar o peito, eu sei. E você? Você fracassou – como mãe, como mulher, como profissional de saúde. Então tô aqui pra dizer que não, você NÃO fracassou. Você tentou MUITO, eu tenho certeza que sim. Tentou tudo que podia e deu até aquilo que nem tinha pra dar. Eu dei chupeta pro meu filho porque com 10 dias ele já não estava quase mais no peito e só tomava leite com uma seringa após eu ficar 1h coletando – e a necessidade primária de sucção ficava como? Aliás, a primeira pessoa que deu a chupeta pra ele foi a minha mãe porque eu não tive coragem – e eu, olhando, chorei. E nas outras próximas vezes eu também chorei.

Aí você entra na rede social e só lê tudo aquilo que já sabe há muitos anos – os benefícios de não dar chupeta, de livre demanda, de peito, de colo. e você chora de novo. Porque poucas escrevem sobre quando dá tudo errado. Se deu errado foi falta de informação, foi falta de vontade ou foi um caso de vida ou morte. Nem tudo é pega errada – o meu não era. Porque você precisa se doar até que não reste mais nada de ti pra dar. Até tu te esvaziar de ti mesma e te esgotar. Você precisa ser, fazer, parecer, emudecer. Calar. Não é bem visto uma mãe que reclama, afinal, “ser mãe é padecer no paraíso”. Pois não precisa ser assim, nesse grau de auto anulação – e nem devia! – pra você ser uma boa mãe.
“Você precisa tentar, é difícil mesmo, mas passa.” Será que passa pra todo mundo? Pois eu digo que muitas vezes não passa não. E nós precisamos falar sobre isso.

Precisamos falar sobre a vergonha de se dar mamadeira em público para um bebê com menos de 6 meses. Porque tá cheio de mulheres que se privam de vida social até essa idade porque não tem coragem de alimentar seu filho dessa forma e receber os olhares frios do julgamento. Aquele olhar que não sabe NADA da história daquela mulher e do caminho que ela percorreu até entrar numa loja e comprar a bendita da mamadeira. Porque quando eu comprei a mamadeira, eu guardei a nota fiscal – até 30 dias podia devolver. E todos os dias, quando eu levava 1h15 para alimentar o meu bebê com uma seringa, e daqui 45 minutos-1hora tinha que dar de novo, eu olhava praquela mamadeira no armário e tinha vontade de chorar. Ela era o troféu da minha derrota, eu pensava. E o primeiro dia que eu dei a mamadeira, eu chorei. E nós precisamos falar sobre isso.

Aí a balança comprovou aquilo que eu já sabia – foram 8 dias e o Bernardo perdeu peso, e foi um percentual grande, alerta vermelho. Sequer manteve. E eu já não aguentava mais a dor, eu preferia entrar em trabalho de parto de novo, mas não queria mais sentir aquela dor. O dia que eu fui até a farmácia comprar uma lata de fórmula, eu precisei ir em 4 farmácias até encontrar a que eu queria, mais hipoalergênica possível. E cada vez que eu perguntava se tinha, eu contava o que acontecia, numa espécie de auto-lamentação que me ajudava a me convencer que eu tinha suportado até o meu limite. Eu estava tentando provar pra mim mesma, não pras atendentes das farmácias.E dei a fórmula sem chorar, já preocupada com o peso dele como toda mãe estaria – nutricionista, mais ainda. E nós precisamos falar sobre isso.

Essa foto foi de hoje, quinto dia em que consigo dar peito pro meu filho. Depois de 22 dias sem peito, coletando leite de dia, de tarde, de noite e de madrugada, e usando fórmula. Pouco tempo, poucas vezes. Mas eu consegui. E eu chorei todas as vezes – mas, dessa vez, foi um choro de alegria. Ainda dói, a pega ainda está confusa (e pudera, eu já sabia disso), mas já menos – tanto pela estabilização das patologias quanto pelo coração que já acalmou e aceitou. A gente precisa aceitar, se resignar. Isso não é conformismo, isso é maturidade, é responsabilidade emocional com a mulher que habita a nossa maternidade. Porque ela existe, só está no cantinho, de lado, fora da nossa prioridade no momento. E, muitas vezes, a gente aceitando que tudo deu errado, as coisas começam a dar certo de novo. Porque, afinal, o que é dar errado quando se faz o melhor que se pode? Isso é dar MUITO certo.E nós precisamos falar sobre isso.

Você, mãe que faz aleitamento misto (como eu) ou apenas a base de fórmula, você é maravilhosa, é guerreira, é FORTE. Você é a melhor mãe que seu filho poderia ter. Não é só ofertando peito que você demonstra pro seu filho que o ama. Ele sabe disso todos os dias que olha pra ti.
Essa é a SUA vivência, e ninguém tem direito de falar sobre ela. E ela é linda, é cheia de fantásticas imperfeições. É o teu caminho, e você precisava passar por ele pra chegar onde chegou.
Aqui nasceu uma mãe, mas também nasceu uma nutricionista materno-infantil. Com um pouquinho mais de informação, mas com MUITO mais empatia.
Estamos juntas e vamos continuar tentando até quando pudermos, mas sabendo que nosso limite termina onde o vazio preenche.
E vamos continuar falando sobre isso 💜

 

14 comentários

  1. Letícia meu nome é Lucélia, fiz tratamento pra candidíase achei que meus problemas teriam acabado engano meu pesquisando descobri fenômeno de raynald minha bebê já vai fazer 3 meses e até agora não consigo resolver isso pro a Deus que me cure já estou cansada de tantas tentativas em vão

  2. Meninas, também estou passando por muitos apertos. No quarto dia de nascimento do meu filho meus bicos racharam, quanto dor Meu Deus, eu gritava quando amamentava, ficou em carne viva, por fim a pediatra passou uma fórmula e eu parei de amamentar por 3 dias na tentativa de cicatrizar um pouco. Fiquei muito triste em dar a mamadeira, doia o coração. O bebê nessa idade tem muita necessidade de sugar, tentei dar a chupeta, mas ele não aceitou. Passados os três dias, usando tudo que me ensinavam no bico do peito, ele voltou a mamar e pra minha surpresa os bicos racharam novamente, pois eles não estavam 100% cicatrizados. Bom, parei mais alguns dias e depois ele voltou a mamar, mas a dor continuava insuportavel. Comecei a tratar uma mastite que por fim virou abcesso, fui para o centro cirúrgico tirar o pus e não adiantou, passei um mês fazendo punção toda semana, isso sim foi dor, a agulha era gigante e a médica não dava anestesia, um sofrimento só. Pois bem, depois que eu curei as duas bolsas de abcesso eu mudei de médico, pois a dor não melhorava, foi então que ele me diagnosticou com candidíase. Venho tratando com fluconozol e dactarin, mas não senti muita melhora nessas duas semanas de tratamento. Ao ler o seu post, percebi que o meu problema pode ser Raynaud. Pra completar essa semana surgiu uma nova mastite e já me encontro tomando antibiótico novamente. Vamos que vamos, meu bebê está quase com 3 meses e eu até hoje não consegui amamentar sem sentir dor. Ele está só no leite materno, mas isso porque eu me considero muito guerreira, acostumei com a dor, parece que ela já faz parte da minha vida.

    1. Oi, Luciana! És muito guerreira mesmo, a dor é muito intensa. Claro que para cada uma a percepção desta dor também é diferente. A mastite então, nem imagino o quanto sofrestes! Veja a possibilidade de consultares com uma nutricionista para que esta orientação seja mais específica, mas seria interessante utilizares cepas probióticas (tem algumas marcas prontas no mercado que podem quebrar um galho), além de diminuir bastante o consumo de carboidratos (mesmo os integrais), açúcar e fermento biológico, que alimentam ainda mais a candida. Um super beijo e espero que ajude!

  3. Olá Letícia, meu bebe tem 45 dias e estou com candidíase, já tratei com remédios via oral, pomadas, e nada parece adiantar, como sei se estou com Fenômeno de Raynaud? Sinto muita dor, o bico fica latejando durante e após as mamadas, dou mamá chorando. Também sou nutri especializada em materno infantil, parece q temos que dar o exemplo e não desistir nao é? Estou chegando no meu limite de dor.

    1. Oi, Grace!

      Ai ai, que momento tão difícil! Ainda mais pra nós, como nutris materno-infantis. Quanta cobrança. Achamos que basta ter conhecimento que tá tudo certo, mas não 😔

      Eu descobri por exclusão mesmo. O diagnóstico é clínico, por isso é tão difícil. E é super comum o tratamento ser feito apenas para candidíase, pois os sintomas são semelhantes. O que me ajudou depois de um tempo foi fazer acupuntura. Melhorou bem! Mas até eu descobrir isso, o Bê estava com 25 dias, começando na mamadeira porque dar na seringa estava levando quase 1h, e eu passava o dia coletando leite. Aí acabamos q mamadeira, e ele perdeu a pega quando o Raynaud melhorou, mas eu sabia desse risco. Fazemos o que conseguimos fazer 😔 Aliás, uma dica preciosa foi coletar leite. Dava um alívio na dor e o bebê continua recebido LM. Com 45 dias já não precisa de seringa, pode dar no copinho que fica bem melhor. Tem umas colheres dosadoras que a área de armazenamento é grande, ótimas também. Eu usava a bombinha swing da
      Medela.

      E aquecer bastante o peito antes e após mamadas. Usava bastante a bolsa de sementes e aquecia ela bem pouquinho (aproveitando que ela também é ótima pro bebê), colocando sobre a mama antes e depois. Aliviava muito. O frio piora muito Raynaud, e o Bê nasceu no frio…

      Espero ter te ajudado!
      É nas dificuldades que nos tornamos nutris materno infantis ainda melhores e mães com mais resiliência e empáticas ❤️

      Um beijo, Letícia

  4. Olá, minha filha hoje faz um mês e tenho fenômeno de Raynaud. É muita dor, fisgadas e queimação. Me sinto guerreira de ter conseguido amamentar até aqui, mas penso mil vezes em desistir. Vc continua dando a mama mesmo com o fenômeno? Preciso de ajuda!

    1. Oi, Camila!

      És muito vitoriosa mesmo, porque a dor é imensa e o limiar de dor para cada um de nós é muito particular. Eu não aguentei a dor, o stress foi tanto que adquiri até uma úlcera gástrica…. suspendi e, quando melhorou, meu bebê estava com 3 meses e perdeu a pega – a famosa confusão de bicos e de fluxo. Eu sabia que tinha uma chance imensa disso ocorrer, mas realmente não tinha como dar 120mL na seringa ou no copinho, e também não tive apoio nesse sentido. O que me ajudou muito foi acupuntura! Existem meridianos e pontos específicos que auxiliam muito o Raynaud. Se tiveres esta possibilidade, faça! Tomar vitamina B6 em doses bem elevadas também, mas é importante que você converse com seu ginecologista.

      fique bem com o caminho que precisares escolher! Eu consegui coletar leite até meu bebê ter três meses e meio, então até ali ele recebeu um pouquinho de LM. Agora está somente com fórmula extensamente hidrolisada e tudo ok 🙏🏻

      Beijo com carinho.

  5. Olha cada um da o seu melhor como pode, não importa as limitações que teve em relação a amamentação, só não amamentou como queria porque não deu, mas o amor pelo seu filho esteve sempre presente, isso que importa 🙂

  6. Meu Deus!!!!! Estou lendo este texto e chorando..
    Estou passando exatamente o que você passou e sei exatamente como doi.
    Estou completamente abalada emocionalmente pelo fato de não consegui dar de mama para minha filha, que com 15 dias de vida já estava tomando LA. E hoje ela com 23 dias ainda choro todas vezes que dou mamadeira para ela. Estou tentando de todas as formas voltar a amamentar.. mas a dor é insuportável, também estou com candidiase mamária e rachaduras e o único sentimento que tenho é de incapacidade e fracasso! Já estou perdendo as esperanças.. e ler o seu relato me deu uma nova esperança.

    1. Querida Camila,
      Tenho certeza que estais fazendo o teu melhor. Um dos aprendizados que a maternidade me trouxe (me traz todos os dias, na verdade) é que não temos o controle de absolutamente nada – e uma destas coisas é a amamentação. E a percepção de dor é muito diferente pra cada um de nós e só nós temos como saber o nosso próprio limite. Sei que é muuuuuuito difícil pensar da forma que vou te falar agora, mas mentalize que a cada mamadeira que estais dando para sua filhota o seu carinho e amor imensuráveis vão junto dela. O seu cuidado, o seu zelo, a sua proteção. Ela precisa, antes de mais nada, da mãe minimamente em equilíbrio, e muitas vezes para conseguirmos este equilíbrio, pisamos em muito (ou tudo) o que havíamos planejado. E tá tudo bem. Ela vai crescer e te amar incondicionalmente da mesma forma. Tem muitas formas de se criar vínculo com o nosso bebê – amamentar é uma destas formas, mas não a única.
      Aqui estamos com 3 meses e estamos super bem. Com vocês também vai ficar, independente do caminho que vocês precisarão seguir. Estarão juntas nele!
      Beijo com carinho,
      Letícia.

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