Esses dias me ocorreu que eu deveria publicar meus relatos de parto no blog da Abraço de Mãe. Para isso, fui, é claro, reler meu texto do parto do Caio. Ainda hoje me emociona. E ao mesmo tempo eu percebo o quanto eu mudei de lá pra cá. O quanto minha trajetória como doula me fez aprender e aprender. E como eu me sinto bem com a informação que eu tenho hoje (que não para de crescer).

 Se eu tivesse tido esse mesmo parto hoje, eu já não deixaria a anestesia me prender à cama (que foi o que mais me perturbou na minha experiência), eu não ficaria tão espantada com o fato de Caio ter nascido com o cordão enrolado no pescoço, eu não teria perdido a oportunidade de ficar com ele na sua primeira hora de vida – a hora dourada, em que eu passei deitada na cama tendo minha laceração suturada (enquanto Caio estava no colo do pai, o que foi legal e tal, ótimo, mas essa hora era pra ser minha e do meu bebê!), fato que na realidade não teria me impedido de tê-lo num pele a pele, por exemplo. Bastava eu ter pedido. Mas eu não sabia. Nem tinha tanto blog, tanta gente, falando sobre isso há cinco anos.

 O que também faz eu ver o quanto o movimento pelo parto humanizado e pelo fim da violência obstétrica no Brasil já caminhou. Mesmo com as armadilhas que às vezes o discurso nos prega, o que queremos é o protagonismo e o respeito pela mulher nesse momento tão especial da vida.

 Até aqui na Nova Zelândia, país onde todo parto tende a ser humanizado, há uma melhora – os ideais da humanização chegam mais longe, valoriza-se ainda mais o apoio que toda mulher merece e a conexão mãe-bebê, e já se encontram (ainda que poucas) doulas de parto e pós-parto atuando nesse caminho por aqui.

 Com essa reflexão, compartilho o meu relato de parto, que foi escrito quando Caio tinha três dias de vida, isto é, ainda sob toda a emoção que a experiência despertou em mim.

 Hoje, minha maior lembrança desse parto é a maneira gentil e acolhedora com que fui tratada por toda a equipe. Como doula, isso só me confirma a diferença que faz o acolhimento, a importância disso. Em segundo lugar, me lembro do desconforto de ter ficado tantas horas na mesma posição, deitada na cama, coisa que hoje sei que não precisava ter sido assim (ah se eu tivesse tido uma doula…!).

 Semana que vem compartilharei o meu texto do parto da Isadora – um parto natural e respeitoso no país da violência obstétrica.

 

***

 

Parto para terras ao longe, desconhecidas por mim

Parto para perto do que sou essencialmente

Parto-me em três ou quatro de mim

Parto-me em dois distintos seres

Parto…

 

Quarta-feira, 15/02, 2h30 da manhã. Começo a sentir leves contrações que se repetem a cada meia hora. Depois de já ter tido um falso alarme, me pergunto: será que Caio está chegando? Passo a manhã de quarta sentindo as ainda leves contrações ficarem mais próximas. À medida que a tarde se vai, elas vão ficando também mais fortes, porém ainda curtas – duram entre 30 e 40 segundos. Ligo pra midwife (enfermeira obstétrica). Ela diz que ainda pode evoluir ou cessar – esperemos. Poucas horas mais tarde, contrações mais intensas e durando de 50 segundos a 1 minuto. Ligo pra midwife de novo; ela vem aqui em casa. São 8h30 da noite. Em princípio Antônia diz que estou na fase do pré-parto, pois as contrações do primeiro estágio do parto em si duram de 1 minuto a 1 minuto e meio. Mas aí verifica que já estou com 3 cm de dilatação – “labour established”, me diz. Pode ser que a minha maneira de fazer o trabalho de parto seja assim, com contrações mais curtas. Ela vai embora esperando telefonema meu a qualquer momento para irmos pro hospital; quando as contrações tiverem intervalo de 3 minutos.

Duas horas depois, entre respiração e vocalização (do yoga) para me aliviar as contrações, preciso ir para a maternidade, que aqui é uma ala do hospital. Chegamos lá – eu acompanhada da mãe e do De – pelas 11 horas. Os 12 quartos de parto, superbem equipados como se pode ver nas fotos, todos ocupados. Muitos bebês por nascer! Esperamos uma hora e o quarto número 8 é liberado pra gente. Eu estava então com 5 cm de dilatação.

Vou direto pra banheira, onde passo as próximas duas horas. A Antonia sempre atenta a tudo, e muito atenciosa comigo. Embora a água morna me aliviasse a dor que irradiava pelas costas durante as contrações, estas vão ficando cada vez mais intensas (mas com a mesma duração), e respirar durante o processo já é um desafio. Escuto ao longe a voz das minhas cantoras preferidas (fiz uma seleção de música especial pro parto), numa tentativa de deixar o momento mais prazeroso. A midwife faz a verificação enquanto estou na banheira mesmo e se empolga – parecia que eu já estava quase lá! Tento o gás pra aliviar a dor, mas não me dou bem com ele.

Aí a Antonia pede que eu deite na cama pra ela conferir a dilatação de novo, porque segundo ela na banheira é mais difícil ser precisa. E foi aí que a esperança de um parto rápido e fácil se esvaiu. Na realidade eu ainda estava com 6 ou 7 cm, e ela ainda podia sentir um pouquinho do colo do útero no caminho, e que parecia que por alguma razão estava inchado. Ela me diz que o parto pode durar umas boas horas ainda, e que esse era o momento de conversarmos sobre analgesia.

Decido pela epidural, pois minha sensação é de que eu já estava no limite da dor. O anestesista ainda leva uma meia hora pra chegar, me avisa de todos os possíveis efeitos colaterais, mas eu digo “sim”. Quando se fala em parto normal com epidural, pra mim dá-se a impressão de que a anestesia é um procedimento simples, basta colocar uma agulha na coluna. Ledo engano. Já não se pode comer ou beber nada, então ficas recebendo fluidos através da veia da mão. Milhares de fitas grudadas nas costas, não podes te mexer durante o procedimento tenhas a contração que tiveres, e depois disso, vários aparelhos te monitorando (as contrações, os batimentos cardíacos do bebê), catéter. Ou seja: estás agora “presa” a cama. Ao menos, em uns minutos eu já não sentia as contrações e pude descansar por umas duas horas. Já eram 3h da manhã.

Na verificação das 5h, Antonia constata que a situação está praticamente a mesma: 7 cm de dilatação e o colo do útero inchado no caminho. A epidural começa a perder efeito e agora então tenho um analgésico controlado por mim mesma. Um botãozinho que aperto quando sinto que preciso de mais. Não há perigo de overdose pois só me é permitido apertar o botão a cada dez minutos e no máximo quatro vezes por hora. A partir daí o efeito da analgesia já não é o mesmo: volto a sentir as contrações, embora de forma bem mais leve, mesmo apertando no botãozinho. Nas próximas horas começo a sentir também o desconforto de estar por tanto tempo na mesma posição, e a dor que irradia pelas costas a cada contração já não me deixa mais. Pra mim é pior que a dor do útero contraindo. Ficamos ali a ouvir os batimentos cardíacos do Caio, que aumentam ou diminuem a cada contração. Ao menos sabemos que ele está bem.

Pelas 7h Antonia faz nova checagem, e me entristece saber que já não dilato mais – 7 cm foi o máximo a que cheguei naturalmente. Ela fala com a equipe médica e resolvem me dar ocitocina para que eu alcance os 10 cm almejados. Antonia também me diz que vem um médico me ver pra tentar entender o que significa o colo do útero inchado.

Às 8h muda a equipe médica de plantão do hospital, e o médico chefe vem falar comigo. Com uma simpatia e atenção primorosas, ele me diz que a cabeça do bebê não está bem encaixada na pélvis, além de estar “deflex” (como se fosse com o queixo levemente pra cima, quando deve ser pra baixo, próximo ao seu peito), que talvez seja esse o motivo de eu ter parado de dilatar. Ele tenta virar o bebê com a própria mão, mas não consegue. Esperemos mais pra ver se a ocitocina consegue estimular a dilatação. Ele me diz que como sou uma mulher grande, tendo dilatação vai dar pro parto ser normal, que há espaço pro bebê passar. A essas alturas, todo o meu corpo dói, e a espera de mais algumas horas me parece uma eternidade. Começo a me questionar sobre vantagens e desvantagens de cesariana x parto normal. Começo a me questionar se quero mesmo ter outro filho depois. Parece no momento que toda dor é dor demais…

Um par de horas depois, o médico volta e constata que a situação é praticamente a mesma, com a diferença de que dilatei mais 1 cm. Estava uma média de 1 cm a cada duas horas…

E quando o médico retorna às 11h da manhã, me diz que embora eu só tenha chegado a 9 cm de dilatação, a melhor opção é tentar a ventosa (acho que se fala “vácuo” aí no Brasil) pra arrumar a cabecinha dele, e, dependendo do que acontecer, fórceps. Apesar da tristeza de ouvir essa palavra – fórceps –, o Dr. Abel me passa tamanha segurança que não fico nervosa e sinto até um certo alívio por saber que o Caio logo estará comigo.

Uns minutos depois entram no quarto mais um obstetra, uma pediatra e o anestesista. Cada um que chega vem falar comigo, se apresenta, troca uma ideia com um carinho até, eu diria, na voz que é acolhedor. Esse tratamento ajuda demais. A sensação é justamente de acolhimento; não tem palavra melhor.

O anestesista me dá então uma carga boa de epidural, testa a minha sensibilidade com gelo, me deixa pronta pra não sentir absolutamente nada.

O Dr. Abel organiza a mãe à minha direita, De à minha esquerda, a midwife ao lado do De pra monitorar as contrações, o outro obstetra e a pediatra também se posicionam, e aí vamos nós.

A ventosa não surte efeito. Vejo o Dr. pegando o fórceps e me invade uma tristeza… Viro pra mãe e falo: que peninha do Caio, mãe… Fui introduzida ao sofrimento de mãe nesse instante. A Antonia então me avisa dos momentos da contração, me pede três “big pushes” em cada uma, enquanto o médico vai puxando o bebê pra fora. Estranho fazer força quando não se sente pra onde a força está indo. Na segunda contração, mais três pushes, a mãe me dizendo “isso, filha, ele tá vindo”, e o Caio nasce. Eram 11:24 da manhã do dia 16/02. Colocam ele 10 segundos no meu peito (num parto mais “normal”, esse tempo seria aquele que eu quisesse), não contenho as lágrimas, escuto no pé do ouvido as da mãe, e a pediatra vem pegar o Caio pra fazer o checking, que numa situação – de novo – mais “normal” é feito pela própria midwife.

Nesse meio tempo, enquanto ouço o chorinho do Caio, Antonia me aplica mais ocitocina, agora pra placenta ser expelida. O pediatra mais novo se encarrega desta parte, “massageia” minha barriga, e logo a placenta vem – uma placenta bem saudável, disse ele.

A pediatra volta, diz que meu bebê é muito saudável e passa bem. Me parabeniza, me dá um sorriso e se despede.

Depois, recebo a notícia de que ouve uma laceração de terceiro grau que precisa ser cuidadosamente suturada. O Dr. Abel começa o trabalho. Ainda não sinto nada na região. Fico louca pra essa parte terminar pra eu poder pegar mais meu bebezinho, mas o De já está com ele e traz o Caio pro meu lado. Todo enrugadinho, a cabeça pontudinha pra cima por causa do mau posicionamento na pélvis (vai normalizar em 24 horas, já tinha me dito a médica), mas um bebê saudável e forte. Vejo o De emocionado. Ele divide comigo que se surpreendeu demais com a força que um médico grande como o Dr. Abel teve que fazer pra tirar o Caio de lá. Vejo as marquinhas do fórceps próximas às orelhinhas dele. Ai, que dor no coração pensar que ele teve que vir ao mundo desta maneira agressiva. Sim, o fórceps me parece agressivo, apesar de eu mesma não ter sentido nada…

O Dr. então termina a parte dele, diz que quer me ver na sua clínica em seis semanas, se despede, eu lhe agradeço muito pelo bom trabalho e pelo apoio e segurança, e ele passa a linha e agulha pro outro pediatra, que ainda leva um bom tempo terminando os pontos.

Uma hora depois de o Caio nascer, volto a tê-lo em meus braços. Sinto que ainda tem muita lágrima pra cair. Muita coisa nas últimas horas. Após um tempo a Antonia pesa o Caio (3,790 kg), sugere que eu tome um banho enquanto ela e o De colocam uma roupinha nele. Levantar daquela cama depois de mais de nove horas foi aliviante, dolorido, desafiador… tudo ao mesmo tempo. E nunca pensei que tomar um banho pudesse ser tão difícil.

Umas horas mais tarde sou levada a um quarto individual, e passo esse dia e o próximo sendo superbem atendida pela Antonia e pelas midwifes de plantão, dia e noite. O fato de ter sido um parto assistido (o nome “bonitinho” pra parto com fórceps) fez todos terem comigo mais cuidado, me checando e ao Caio de tempos em tempos, me trazendo os medicamentos nas horas certas, sempre interessados em saber como estávamos nos sentindo. Passei a primeira e única noite no hospital sozinha com o Caio – não permitem que outras pessoas fiquem. Mas não foi difícil como eu pensei que seria, pois cuidado com a gente não faltou.

De manhã a enfermeira de plantão me diz que eu tive a “very independent night” – pois não precisei delas pra cuidados com o Caio – e virando pro Caio: “you have a very good mother!”. Isso foi bom ouvir. Nessa manhã ainda vejo o relatório do parto e leio que o Caio nasceu com o cordão em volta do pescoço (que nem a mãe nem o De tinham me dito, pra não me abalar mais). Não estava apertado, dizia no relatório, mas estava lá. Aí eles confessaram que ver isso e o médico desenrolando o cordão imediatamente à saída do Caio foi também parte do choque. Mais um motivo pra minhas lágrimas rolarem.

Enfim, como disse o De, acabou acontecendo tudo que a gente não queria que acontecesse: epidural, pouca dilatação, ocitocina, ventosa, fórceps, cordão umbilical, laceração. Mas a estrutura física e o tratamento e apoio prestados por parte de toda a equipe foram tão incrivelmente bons que o processo e o resultado final acabaram sendo os melhores possíveis pras circunstâncias. Quanto de dinheiro gastamos? Absolutamente nada.

No fim das contas, no dia seguinte já me sentia bem, minha sutura foi tão bem feita que não me incomoda, e acabei recebendo alta naquela noite. Volto a pensar que um parto normal, ainda que em realidade tenha sido meio “anormal”, é melhor que uma cesariana.

Deixo o hospital tranquila e agradecida por ter tido meu filho na Nova Zelândia. É essa gratidão estranha, sentida por um país. Um país que também tem seus defeitos, claro; mas que sabe investir naquilo que tem de mais precioso – sua gente. E ser tratada do começo ao fim com dignidade (sendo eu dos direitos humanos, como não mencionar isso?) não tem preço, não é sequer um direito que temos – é uma prerrogativa nossa, respeitada na Nova Zelândia. E que é crucial, definidora, fundamental.

Assim, parto feliz.

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