Quando a Abraço de Mãe começou a oferecer o serviço de doula de parto, além da doulagem pós-parto que sempre foi nosso foco, a Gabi foi uma das nossas primeiras clientes. Mulher consciente e empoderada, sempre procurou informação de qualidade, e sua escolha foi pelo parto normal. Na imprevisibilidade dos acontecimentos, acabou tendo uma cesária.

 Nesse depoimento absolutamente sincero, em que ela nos conta inclusive sobre seu transtorno de ansiedade e como isso afetou sua experiência, Gabriela divide com a gente seus sentimentos, seus medos, suas agruras e também alegrias.

 O parto é um evento imprevisível e apoio para lidar com os caminhos que ele pode tomar é essencial. Gabi teve isso e nos conta tudo – hoje sobre sua gestação e parto. Semana que vem, sobre seu pós-parto.

 Vale a leitura!

 

 Por Gabriela Vaz

Bom, eu vou começar falando um pouco da minha gestação e depois falarei do meu parto e pós-parto.

 A gestação

A minha gestação foi um pouco conturbada, não tive grandes complicações, mas foi cansativa física e emocionalmente.

Eu sou professora de Francês e trabalho num centro cultural no centro de Floripa. Dar aula com um barrigão é um desafio, assim como me deslocar de ônibus para as aulas particulares, mas isso não foi o mais complicado. O início da gestação foi ruim, enjoei demais, vomitei muito e não havia nada que fizesse passar esse mal-estar. O primeiro trimestre foi inteirinho assim, tanto que tive que trancar a faculdade porque eu saía da sala de aula pra vomitar o tempo todo, fora que cognitivamente eu não estava funcionando bem.

O segundo trimestre foi mais tranquilo, ainda tinha enjoos, mas nada como no primeiro trimestre.

O terceiro trimestre foi o mais difícil, além das pressões que normalmente sofremos (nós mulheres e gestantes), teve o fato de eu ter uma pré-diabetes gestacional que juntou com o cansaço de dar 26 horas de aula semanais, os hormônios bombando, a preocupação com o ganho de peso, o fato de não conseguir dormir, o desconforto e o meu famoso transtorno de ansiedade que colocava tudo isso numa proporção dificílima de lidar. Mesmo fazendo terapia foi difícil.

A gestação foi de longe a parte que eu menos gostei… não me achei linda grávida, não me sentia divando, enfim… não curti.

O parto

O parto veio pra coroar o final da gestação cheia de emoções e dificuldades.

Dia 16 de novembro de 2016, às 22h24, com 38 semanas e 3 dias de gestação, a minha bolsa estourou. Eu estava deitada na cama com meu marido, estávamos assistindo televisão, quando senti algo quente escorrer (eu estava de absovente), foi um susto! Falei: “tem algo estranho acontecendo!” – nesse dia, eu tinha ficado, ao todo, umas seis horas sentada na bola fazendo exercícios, minutos antes do ocorrido, eu estava me exercitando – contraí meu períneo e corri pro banheiro, quando sentei no vaso parecia que tinham aberto uma torneira no máximo de pressão (muita água!), aos poucos foi diminuindo e ali eu fiquei durante uns 40 minutos, num misto de emoção e ansiedade. Dali eu mandei mensagem no grupo da minha família no whatsapp pra avisar meu irmão que ele tinha perdido a aposta – minha família fez um bolão pra acertar o dia do nascimento do Antônio e minha cunhada ganhou – logo minha mãe ligou toda nervosa querendo saber como eu estava e dizer que preparava a casa pra me receber, meu irmão ligou em seguida e ficou comigo no telefone mais uns 20 minutos, mandei mensagem pra minha doula querida que me monitorou até 1h da manhã. Enquanto eu falava com meus familiares, meu marido falava com o obstetra que disse que se não houvesse contrações ritmadas até às 7h da manhã teríamos que induzir o parto.

Saí do vaso pra ducha, não tinha contrações, apenas uma cólica fraca, fiquei lá uns 20 minutos sentada na bola e tentando relaxar.

Eu sou uma pessoa ansiosa, muito ansiosa, além do normal, e meu marido, pra contrabalançar, é um poço de calma, acho que eu não tive um treco por causa dele.

Nos nossos planos, nós só sairíamos de casa quando eu tivesse contrações ritmadas e iríamos pra casa dos meus pais que fica bem próxima da maternidade. O que aconteceu foi que arrumamos a casa, organizamos tudo pois ficaríamos 15 dias fora e decidimos ir pra casa dos meus pais antes do planejado. Era meia-noite e meia quando saímos de casa, eu já tinha contrações mais fortes, mas ainda muito espaçadas.

Cheguei na casa dos meus pais, todo mundo acordado, a minha mãe estava elétrica (mais do que o normal hehe), meu pai de pijama andava de um lado pro outro na sala e minha prima-nutri-querida completava o time. Eu não teria lugar melhor pra ficar, nada como o aconchego da mamãe nesse momento. Ganhei cafuné, chazinho e massagem, mas não consegui pregar o olho de ansiedade. Enquanto meu marido roncava do meu lado na cama, eu imaginava e idealizava meu parto.

Às 2h45 da manhã as contrações estavam com 10 minutos de intervalo, liguei pra Dani (doula querida) e pedi que ela viesse. Minha equipe de doulas era muito chique, eu tinha duas! Dani e Jaque, da Abraço de Mãe. Elas chegaram às 3h30, conversamos, fizemos alguns exercícios, mas as contrações ficaram espaçadas novamente. Tentei dormir de novo, mas não consegui. Às 6h30 minha mãe fez um café pra eu tomar; apesar de todo esse tempo sem comer, a ansiedade não me deixava ter fome, empurrei uma torrada com chá de canela feito pela Dani. Às 6h45 fomos pra maternidade com a minha mala e a do Antônio, a Dani e a Jaque ficaram na casa dos meus pais na esperança de não ter que induzir e eu voltar pra lá. Chegamos na maternidade e logo liguei pro Dr. Pablo que acabou com as esperanças de não induzir; ele já tinha reservado um quarto pra mim e estava chegando pra começar a indução.

Às 7h20, deitada na enfermaria enquanto aguardava vagar meu quarto, foi iniciada a indução. Pra quem não sabe ela é feita com um comprimido de mais ou menos uns 4,5 cm, no formato de um losango e que dói MUITO pra colocar. Esse comprimido é introduzido na vagina a cada três horas e ao todo são três ou quatro pra induzir totalmente o parto.

O primeiro comprimido surtiu efeito 10 minutos depois. Ainda estava deitada na maca, pois se deve esperar 30 minutos pra poder levantar depois da introdução do “comprimido dos infernos”, e as contrações vieram fortes e a cada 15 minutos. Dr. Pablo mandou eu andar, portanto levantei e fui receber meu irmão e cunhada que estavam na recepção, lá já estava a Dani me aguardando pra me auxiliar. Às 10h20, introdução do segundo comprimido, muita, mas muita dor. Fomos para uma sala reservada, fiz exercícios com a Dani, minha cunhada e meu marido. Muito chá de canela. Às 11h30, no quarto, eu já não conseguia falar durante as contrações, fui pro chuveiro na bola, fazia xixi de 10 em 10 minutos. Dr. Pablo disse ao meu marido que não havia necessidade de introduzir mais nenhum comprimido, a dor já estava num estágio muito avançado.

A dor de um parto induzido é muito, mas muito pior que a do parto natural, palavras do Dr. Marcos (meu outro obstetra) e eu sou testemunha dessa dor excruciante. Foram quase 7 horas dessa dor e no fim, meu corpo estava quase sucumbindo a ela. A cada exame de toque eu quase morria, literalmente, de tanta dor.

Às 17h30, entra a enfermeira no quarto pra medir meus sinais vitais. Na inocência, alguém dos que me acompanhavam pergunta se está tudo bem e ela responde: “Sim, está tudo bem. Ela está só no comecinho, né?! 3cm de dilatação.” Naquele momento, eu estava de cócoras, meu marido me segurava, eu olhei pra minha cunhada e disse: “no comecinho?!” Minha cunhada não conteve as lágrimas. Eu tinha passado todas aquelas horas sem reclamar, nem chorar, fiz todos os exercícios sugeridos pelas doulas. Nem meu pai, nem meus sogros conseguiram ficar na maternidade, pois dava pra ouvir meus gritos do estacionamento. Meu marido saiu do quarto algumas vezes pra chorar de desespero. A dor era visivelmente absurda e dava pra ver no meu corpo a força de cada contração. Meu corpo todo tremia e parecia que eu ia partir ao meio. Eu não tinha mais forças. Assim que a enfermeira saiu, eu me joguei no chão e me entreguei. Chorei alto e gritei: “Eu não aguento mais! Eu não aguento mais! Eu vou morrer!” Meu marido saiu do quarto atrás do obstetra, a Dani me segurou, todos choravam. Dr. Pablo chega no quarto, mede os sinais vitais do Antônio e eu puxando desesperadamente o jaleco dele  dizia: “Me apaga! Me dá qualquer coisa! Me apaga, porque se continuar assim eu vou morrer ou ficar louca!” E ele respondia: “Tu tá louca?! Não vou te apagar!” Todos tentavam me acalmar, mas a cada contração (a cada 1m30s) eu gritava: “Não! Não! Não! Eu não aguento mais!” Claramente, a enfermeira foi a gota d’àgua para eu não conseguir mais entrar na partolândia. Ao sair do quarto o Dr. Pablo disse ao meu marido que os batimentos cardíacos do bebê estavam alterados e antes de tudo me disse: “Tu vais pro chuveiro com teu marido e vais pensar no que queres fazer.” Minha mãe pedia, implorava, pra eu fazer a cesária, que eu já tinha ido longe demais e tinha sido uma guerreira, mas que o sofrimento já tinha ultrapassado os limites.

Eu, que tinha sonhado tanto com o parto natural, não conseguia aceitar que não seria possível, chorei de cansaço, dor e tristeza, a apatia tomou conta de mim e enquanto eu chorava e me debatia de dor, me levaram pro chuveiro, tiraram minha roupa e me sentaram. Ficamos ali alguns minutos, eu e meu marido, quando na segunda contração, em lágrimas, eu disse: “Eu desisto.” Meu marido se vestiu, chamou minha mãe e o obstetra já veio com a enfermeira pra me levar pro centro cirúrgico. Eu não tinha mais reação, nem opção, a cesária era, a partir daquele momento, indicação clínica. O Antônio estava entrando em sofrimento, a cirurgia era inevitável e deveria ser feita o mais rápido possível. Antes de sair do quarto, sentada na cadeira de rodas, minha mãe me diz enxugando minhas lágrimas: “Filha, o Antônio tá chegando! Acabou! Agora é só alegria!”

No centro cirúrgico tive mais três contrações deitada na mesa de cirurgia. Um detalhe importante, eu tenho fobia de agulhas. Além de ter que enfrentar uma cirurgia contra a minha vontade, tive que enfrentar também o meu pavor de agulhas, que, confesso, se tornou pequeno diante da dor absurda que eu sentia.

Na terceira contração, o Dr. Pablo já estava paramentado, então me segurou, me deu apoio e disse: “Chega de lágrimas, agora só se for de alegria. Teu bebê tá chegando, não importa mais como.” Foi a última, logo depois eu já estava recebendo a morfina e a raqui. O efeito foi rápido e a morfina dá um barato (hehe), minutos depois eu chorei porque não sentia mais dor.

Meu marido e a Dani entraram na sala pra acompanhar o parto. Quinze minutos depois do início da cirurgia baixaram a cortina pra eu ver meu filho nascer. Ali, eu chorei copiosamente. Acabou. Ele veio pra mim nos braços do meu marido, chorava. Eu cantei pra ele, chorando junto. Cheirei meu filhote, beijei. Ele chegou e nada mais importava. Apgar 9/10, 46,5cm, 2,830kg, bem pequenininho e a cara do papai.

Não perca a continuação deste relato na semana que vem. Como é o pós-parto de quem queria um parto normal mas acaba tendo uma cesariana?

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