Tenho a sorte e a honra de trabalhar com famílias que, além de muito amor, têm o dom da escrita e a bondade de compartilhar depoimentos com a gente!

Leonardo é um pai que mergulhou fundo em cada passo da gravidez, parto e pós-parto com sua parceira, a Tânia. E do seu envolvimento tão completo e verdadeiro nasceu este lindo testemunho, que nos emociona e nos mostra que o turbilhão emocional não é exclusivo das mães; que pai que cumpre seu papel e se envolve honestamente também sente o impacto da transformação que a chegada de um filho traz!

Obrigada, Léo e Tânia, por tanta abertura e generosidade!

Dulce

RELATO DE PÓS-PARTO – A experiência de um PAI

Por Leonardo Cubas Gusmão

Esse é o João. Ele faz caras e bocas muito engraçadas, e cada vez mais tenho vontade de apertá-lo e mordê-lo, de tanta fofura.

Já se passaram quase 3 semanas desde que ele nasceu (foi no dia 8, à 1h30 da madruga) mas parece que foram 3 anos, ao mesmo tempo que parece também que foram apenas 3 dias.

É muito louco como a percepção do tempo muda completamente (pra não dizer que desaparece) quando a gente tá numa bolha tão apertada. Me sinto numa realidade paralela, onde o tempo não existe, e dia e noite são meras convenções. Não existe mais dormir, não existe mais querer (e não querer), pra falar a verdade parece que não existe mais nem eu, o que existe é aqui e agora. Não é uma questão de opção, é uma questão de demanda, urgência, não tem como não estar presente, brigar com o momento é sofrimento certo.

E foi isso que aconteceu comigo até começar a trabalhar a aceitação e entrega ao momento presente. Todos os planos, todos os conceitos, todo o controle, tudo cai por terra. Diferentemente de qualquer outra missão que já experimentei na vida, cuidar de um bebê não tem esqueminha pra dar certo, não tem aquela grande sacada que vai funcionar sempre e aí você já coloca no planejamento do dia como uma tarefa rotineira, prevendo mais ou menos quanto tempo vai gastar com cada processo, como se fosse um projeto. Não, não tem isso, esse “projeto” neste caso é vivo e completamente, absolutamente, inexoravelmente imprevisível. O que funciona neste exato momento pode ou não funcionar no instante seguinte, aquele padrão de horários que você observou e começou a acreditar de repente te dá um rodo e não é nada daquilo, já é outra coisa.

É claro que a rotina ajuda, é menos caótico com ela do que sem ela, mas nunca pense que você venceu o Caos, porque é nesse momento que ele te surpreende. O Caos é invencível, ao menos por meros mortais, essa é uma das valiosas e numerosas lições que esse chacoalhão do nascimento do João me trouxe. Só nos resta então aceitar o Caos e a imprevisibilidade, a ausência de controle, a vida como ela é.

Você acorda 7h da manhã com merda pra todo canto do quarto, sua esposa toda cagada, e o seu filho sorridente (apenas um eufemismo), deitado no trocador; você foi dormir às 3h, levanta bambeando, mas não hesita, vai lá e faz o que tem que ser feito para a sua esposa poder terminar em paz outra coisa que também precisa ser feita. Você abdica de todos os planos que não dialogam com a prioridade que é cuidar de sua esposa e filho. Corta da sua vida o que for necessário, mesmo que seja doloroso, não tem o que ficar pestanejando, a decisão se mostra clara e cristalina. Sem chororô… porque afinal de contas já tem muito choro para ter que lidar, é bom economizar energia.

É tipo isso. É a única forma de não sofrer (ou talvez minimizar o sofrimento), aceitação e entrega. Vale sempre lembrar o dito do Poeta: “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Mas se parar para pensar a vida aqui na Terra como um todo é assim, um eterno seguir em frente, um respirar fundo e partir para a missão seguinte. Essa situação de paternidade / maternidade é apenas mais visceral, mas não tem tanta diferença assim como parece em princípio, e isso é algo que só estou começando a perceber. Poderia ser qualquer situação do tipo “nada nunca mais será como antes”, e que de perto mesmo são todas as situações, mas vamos ser didáticos e olhar para os extremos: eu poderia estar preso, estar num campo de concentração, ter meu lar devastado por um tsunami, poderia ter sofrido um acidente e ter ficado paraplégico, ou poderia ter adquirido uma doença severa, crônica e incurável, o que, para este último caso é bom encarar como um treino, porque envelhecemos e meio que inevitavelmente uma hora adoecemos pra valer (há exceções, mas não importa o quão saudável é sua vida, de repente você tem um câncer… é mais ou menos essa a regra geral), e aí teremos que lidar com isso, não vai adiantar muito se contorcer e espernear, não vai mais ter o peito da mãe como solução final. Com todas as situações é assim, temos que simplesmente aceitar que agora é assim e ponto. Lide com isto: aceite, acolha, incorpore, transforme, para logo se tornar natural, temos essa extraordinária capacidade de adaptação, é o que nos mantém vivos e ocupando esse planeta até agora.

Portanto, apesar dessa melancolia toda, que não é só aparente, é um fato, estou grato pela experiência (mas demorou, viu? Até poucos dias atrás não estava não, rs), este é o maior convite para estar absolutamente presente que já recebi na vida. Tenho um filho recém-nascido e uma esposa se recuperando de uma inevitável cesárea após 24 horas de trabalho de parto cheio de complicações, que culminou em anemia no pós-parto, e isso é tudo o que importa no momento.

Isso explica o meu longo atraso em me pronunciar sobre o assunto, foi simplesmente inviável antes, fisicamente e psicologicamente.

No mais eu gostaria de ressaltar que todo homem deveria assistir presencialmente (e presentemente) a um trabalho de parto ao menos uma vez na vida. Isso talvez erradicasse o machismo da face da Terra, porque não é possível, após essa experiência, não ter máximo respeito pela absurda capacidade que uma mulher tem de passar por esse processo, saindo até mais inteira (psicologicamente falando) do que quem assiste.

Essa é a minha experiência, e não ouso dizer que ela represente mais que unicamente a minha experiência. Não devo fazer isso nunca mais.

Um comentário

  1. Leo, bom dia.
    Só consegui ler agora e sei exatamente o q é isso, talvez na ocasião qdo eu mencionava sobre as dificuldades, vc não desse tanta atenção, mas só quem passa é q sabe. Estou feliz e não vejo a hora de poder visitá-los (aguardando a recuperação pós parto do casal kkkk).

    PARABÉNS pelo lindo relato,
    abração do seu irmão, RÔ.

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