Semana passada me surpreendeu a quantidade de julgamento feito por mães ao verem a foto da mãe que estava no celular enquanto seu bebê ficava sobre um pano no chão do aeroporto. Fiquei impressionada também por ver blogs que eu tinha em alta conta publicando – e julgando – aquela mulher. Ninguém sabia as reais circunstâncias, e a maioria sequer tentou pensar que poderia haver motivos praquela cena. Foi um julgamento atrás do outro – um massacre verbal. Escrevi minha opinião numa dessas publicações e tive umas poucas curtidas de apoio. O não julgamento e o respeito às escolhas de cada mãe é uma das maiores bandeiras da Abraço de Mãe – já escrevemos sobre isso no nosso blog, já publicamos variados posts na nossa fanpage. Mas vejo que estamos tão longe do ideal…

Há uns dias recebi um depoimento de uma amiga de quem fui doula pós-parto por internet, já que ela mora na Inglaterra. Conheci a Gi na Nova Zelândia. Nos mudamos pra lá no mesmo ano (2008) pelo mesmo motivo principal (por nossos companheiros), e depois de uns anos saímos de lá, cada qual com suas razões. Naturalmente que uma doulagem “digital” não é a mesma coisa que uma presencial – tem o fuso-horário, tem que ligar o computador, tem a tela. Mas uma doulagem virtual tem sim resultados reais. E nessa minha primeira experiência do tipo, sobressaiu-se a questão do não julgamento. Bem a calhar com as recentes polêmicas.

Obrigada, Gi, por dividir sua experiência com a gente.puerperioPor Giane Telles

O meu puerpério foi um momento de transição muito delicado em que eu acolhi uma outra mulher dentro de mim. Eu acordei e de repente lá estava a mulher, a esposa e agora também a mãe do Luca, sugando as informações que vinham de todos os lados –  família, amigos e profissionais da área – de como cuidar de um recém-nascido e tentando decidir qual delas seria a melhor para o bebê e como eu as faria. Eu amei meu bebê desde o primeiro suspiro de vida dele; no entanto, eu foquei na responsabilidade e nos cuidados que deveria ter com ele naquele momento, mais do que no quanto eu o amava. Embora tenha lido livros e me informado o máximo, nada me preparou para a parte prática, afinal o nenezinho deixou de ser a referência dos livros, do google, e estava ali, em pessoinha, ele era real e foi então que descobri que teoria e prática nem sempre andam lado a lado.

Em muitas situações me senti pressionada a agir de certa forma. Acho que eu procurava aprovação de que estava fazendo as coisas certas de acordo com o que fulano pensava. Minha inexperiência colocava em dúvida minha capacidade de estar sendo uma boa mãe; tinha a incerteza se estava fazendo o melhor para meu bebê.

Hoje me pergunto se essa busca por aprovação é comum no puerpério. Mas acho que eu queria isso mais em forma de elogios e menos em opiniões sobre o que estava fazendo errado.

Que tal dizer: “Mamãe, ótimo trabalho, neném não tem nenhuma assadura!” Sim, os lenços umedecidos ajudam bastante, mas eles não limpam o neném sozinhos, né?

São opiniões e comentários simples mas que causam um estresse emocional desnecessário nas novas mamães. Muitos acham que estão dando críticas construtivas, mas, gente, críticas são sempre críticas, certo? E durante o puerpério principalmente elas têm uma influência muito maior.

Na gravidez fui questionada muitas vezes se iria ou não amamentar, e eu não sabia se iria até o momento em que o Luca nasceu. Quando ele nasceu foi algo que eu quis fazer e aconteceu naturalmente, mas era comum eu ouvir “Você vai amamentar, né?” ou “Você vai ter parto normal, né?” Não importa a resposta, sempre recebia aquele olhar. A maioria das perguntas vinha com um “né” no final. Eu nunca levantei nenhuma bandeira para os assuntos, continuo achando que a decisão é da mulher/mãe.

Depois que ele nasceu as opiniões eram sobre o banho dele, sobre como, onde e quantas vezes ele deveria dormir, ou então eu ouvia: “Você está exagerando, comigo foi muito pior.”

Cansei de ser questionada se eu dormia quando ele dormia – e não, na maioria das vezes eu não dormia quando ele dormia, eu queria fazer outras coisas. E foi um alívio poder dizer a alguém, minha amiga e doula pós-parto, sem receber um “sermão”.

Hoje eu consigo perceber que muitas mães decidem coisas importantes por uma influência imposta das outras pessoas e nem se dão conta. Hoje eu sei que caberá sempre a nós mães decidir o que achamos certo ou errado, e que tudo bem nos arrependermos de certas decisões (assim como aconteceu comigo) porque erros fazem parte da nossa nova jornada como mãe, principalmente mãe de primeira viagem. Hoje eu sei que devemos usar e abusar dos nossos instintos.

Luca está com seis meses e até hoje escuto “Você deveria fazer isso ou aquilo”, mas com o tempo a gente aprende a lidar com as críticas, opiniões e até a rir de algumas delas.

Minha querida doula e amiga Dulce me ajudou muito a entender e aceitar que todos os meus sentimentos como mulher e esposa eram válidos e que minhas incertezas e certezas como mãe recente também são válidos, até mesmo as coisas mais banais aos olhos alheios. Por isso, acho importante ressaltar a diferença que faz ter alguém para nos ouvir sem preconceito, não apenas no puerpério mas na gravidez também, porque esses são momentos de extrema fragilidade para a mulher. A gente precisa conversar, ser ouvida, dividir as aflições.

Para mim foi muito bom ter alguém a quem eu pudesse confiar meus pensamentos, medos e dúvidas. E foi muito natural falar sobre certas coisas com você, Du. Coisas consideradas tabu para mim. Muito obrigada pela sua sabedoria, por ouvir sempre, e pelas palavras doces de encorajamento, ressaltando sempre as coisas boas que eu estava fazendo. Tenho um novo respeito pela delicadeza do seu trabalho como doula pós-parto, de jamais julgar e de também sempre enfatizar a importância da MULHER que sou, não apenas a mãe nessa fase infinita e maravilhosa de descobrimentos e aprendizados da maternidade. No final de cada conversa que tínhamos eu me sentia uma mulher mais leve, segura e consequentemente uma mãe melhor.  Ver meu filho saudável, alegre, ativo são as provas de que o que tenho decidido e feito por ele até aqui tem dado certo.

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