Uma das características mais importantes que a doula pós-parto deve ter – e a bem da verdade qualquer pessoa de apoio de uma puérpera – é saber ouvir.

Muitas e muitas vezes no pós-parto, em meio à baixa dos hormônios e das atividades que eram cotidianas, e em meio à alta de outros hormônios e de tanta coisa nova para se aprender a fazer, o que a mãe recente mais precisa é de alguém que ouça o que ela tem a dizer, como ela está se sentindo, as razões pelas quais se sente confusa, insegura, cansada.

Saber ouvir, no entanto, vai além de ficar calada e deixar a outra pessoa falar, falar, falar. Ouvir inclui realmente prestar atenção no que está sendo dito, olhar nos olhos da pessoa, às vezes reafirmar o que a outra está dizendo para que se sinta compreendida, demonstrar em pequenos gestos até inconscientes que aquilo que a mulher está dizendo é de fato importante para quem ouve também, pois o interlocutor se preocupa com ela e quer o seu bem-estar.

Já prestei atendimento a puérperas que, estabilizada a amamentação e outros desafios, coube a mim apenas ouvi-las de verdade e normalizar as situações que lhes pareciam tão bizarras. E depois de uma horinha ou duas de conversa, eu saía da casa daquela mãe com a certeza de que ela estava se sentindo valorizada, reconhecida, ouvida enfim.

Se você faz ou vai fazer parte da equipe de apoio de uma mulher que se tornará mãe, lembre-se de perguntar primeiro como ela está, e de escutar sua resposta sem interrompê-la. Às vezes, no afã de mostrar empatia, logo queremos contar que “com a gente também foi assim”, e acabamos cometendo o erro de começar a falar de nós mesmos em vez de ouvir o que a mãe recente quer dizer.

Esses dias me deparei com um artigo dando dicas preciosas de como ser um “ouvinte ativo”. Tomo a liberdade de traduzir essas dicas aqui para vocês:

– Dê a quem fala sua atenção inteira e focada.

– Limite as distrações do ambiente, se preciso vá para um lugar mais tranquilo ou simplesmente desligue a televisão, o rádio, o celular.

– Deixe-se ser tocado pelo que está sendo dito; não permita que sua mente comece a divagar e que comece a formular respostas. Isso pode ser bem desafiador.

– Deixe a pessoa terminar de se expressar. Só quando ela começar a repetir as mesmas ideias é que você deve se manifestar pra mostrar que você entendeu.

– Preste atenção na linguagem corporal de quem fala. Muito do que uma pessoa pensa se manifesta na expressão facial, na postura, gestos e movimento dos olhos. Isso pode ajudar a avaliar melhor o que a pessoa realmente está pensando ou sentindo.

– Preste atenção na sua própria linguagem corporal. Faça o esforço de mostrar interesse olhando nos olhos, acenando com a cabeça, e sorrindo se for apropriado.

– Fale pouco ou mesmo nada. Quando falar, atente-se ao tom da sua voz, ele pode demonstrar respeito ou a falta dele. A velocidade com que falamos e a nossa entonação também são importantes. Lembre-se: não é apenas o que falamos, mas como falamos que faz a diferença. Dizer “ahh”, “aham” ou “hummm” pode também demonstrar que estamos focados na conversa.

– Procure esclarecer o que não ficou claro para evitar maus entendimentos. Resuma o que você entendeu falando: “O que você está me dizendo é que …………………., é isso?” Parafrasear o que foi dito requer atenção e funciona muito bem para criar confiança no falante de que ele está realmente sendo ouvido. Além disso, ouvir suas próprias palavras sendo ditas ajuda quem fala a clarificar suas próprias ideias.

– Use questões abertas para encorajar ainda mais expressão. “Como você se sente em relação a isso?” ou “O que exatamente você quer dizer com isso?” são exemplos de perguntas que requerem uma resposta mais abrangente do que simplesmente “sim” ou “não”.

– Seja paciente com quem fala. Algumas pessoas precisam de mais tempo para articular seus pensamentos. Espere que eles completem o que estão falando.

– Aprenda a sentir-se confortável com os períodos de silêncio. Considere-os parte da conversa. O silêncio geralmente motiva a outra pessoa a preenchê-lo ou a juntar suas ideias sem a nossa intrusão. Isso também mostra respeito.

– Não faça julgamentos nem tire conclusões. Quando fazemos isso, nós paramos de ouvir, nos distraímos pela nossa própria necessidade de apresentar uma solução, e no fim acabamos desrespeitando o falante.

Como se vê, saber ouvir requer bem mais do que ouvidos com a capacidade de escutar. É preciso também doação, empatia e solidariedade. Não é à toa que ser ouvida de verdade torna-se cura para quem precisa dividir o que sente, especialmente no pós-parto, período em que os sentimentos são tantos que não cabem em nós, tendo que ser compartilhados para poderem ser vividos com mais leveza. Todas nós mulheres agradecemos!

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